sábado, 31 de julho de 2010

Praça São Francisco, patrimônio da humanidade

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Praça São Francisco, patrimônio da humanidade

(texto meu no blog do Nassif, escrito logo depois do anúncio da chancela concedida pela Unesco)

Depois você também pode ler De.cisão.

Fome de quanto?



Arte culinária de Sandrinha, uma das 'estraga-dietas' da família
    
                                                       
Miserável a voz que reclama
da fome nascida de apenas um dia.
Não sabe da dor latejante
que bate à porta vazia
do estômago daquele homem
e daquela mulher vadia.

Assim que os grilos se acendem,
rendendo o sol que descansa,
vem de novo a voz birrenta,
o choro de uma criança
que quer biscoito recheado,
big mac feliz
e um pacote de cheetos
(um saco!)
pra fazer sua lambança.



Poema da Coleção Das Dores do Povo

Cachê

Poema publicado e comentado originalmente no Overmundo.


 

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Banco de escola


A de Alceu Amoroso, Tristão, feliz
B de Bento Teixeira, o primeiro que se diz
C de Castro Alves, pelos mares navegados
D de Drummond, amor antigo, para sempre
E de Euclides da Cunha e os sertões da gente
F de Ferreira Gullar, voz de palco e revista
G de Guimarães, uma rosa imprevista
H de Haroldo de Campos, pensamento novo e amplo
I de Ignácio de Loyola, em sua censura Zero
J de Alencar, Cinco Minutos para começar
K de volta para encontrar
L de Lygia Fagundes e todas as suas figuras
M de Machado de Assis e seus olhos – Capituras
N de Nélida Piñon, aqui e na Espanha
O de Olavo Bilac, ora dirás por quê
P de Pedro Bandeira, o kara
Q de Quintana, palavras poucas e sanas
R de Rachel de Queiroz, mais sertão em boa voz
S de Sílvio Romero em coleções de vida
T de Tobias Barreto, filósofo, poeta, crítico, jurista
U de Ubaldo, João! Imagine se não
V de Vinícius de muitas e muitos Moraes
W de William Shakespeare, aqui não há questão
X de Xavier na simplicidade dos Chicos
Y do fim do nome de quem quer ser
Z de Zélia Gattai também por Jorge, amado demais


(Do meu livro, "A Lavra".)


domingo, 25 de julho de 2010

Melhor presente - o leitor

Hoje, DIA NACIONAL DO ESCRITOR, 
recebi este presente através de
ELIANE ROCHA, mãe de VINÍCIUS, 
um pequeno leitor de 2 anos: 


O despertar de um dia de domingo


Domingo. Dia preguiçoso...
Vontade de continuar no calor da cama.
Mas... eis que Vinícius acorda!
Bem cedo, como de costume.
Seu relógio biológico não tem discernimento dos dias das semana.
Pediu gogó.
Tomou todinho!, como ele mesmo fala.
Avistou despretensiosamente na sala alguns livros enfileirados, de acordo com os seus tamanhos, e falou:
  Quero ler!
Dentre os diversos livros, suas mãozinhas foram direto aonde?!
No livro laranja, A LAVRA, de sua autoria.
Ele me entregou já aberto na página 81, com o poema BANCO DE ESCOLA, pedindo: 
Leia, mamãe, pra mim!
Divertimo-nos bastante ao ler o ABC inteiro com prefácios biográficos de memoráveis autores associados a palavras com as iniciais do alfabeto, tais como A de Alceu Amoroso.
E de AMOR também, né, mamãe?...LMas o que me chamou atenção foi ao chegar na letra V. Antes de eu citar o verso, ele grita:
É o meu, é o meu! V de Vinícius. 
(Risos.)
É, Vinícius, mas este é também de Vinícius de Moraes.
Acabei viajando em todos os seus poemas e fazendo de um domingo de "preguiça adiada" um DOMINGO BEM LETRADO.

Parabéns, Aglacy!

Foto: Provavelmente feita por Ricardo Gama, pai de Vinícius.

Você pode experimentar Entardecer.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A primeira vez - a história

Caderno de Cultura do Jornal Cinform - Aracaju - SE 30/08 a 05 de setembro de 2010 - Ano XXVIII - edição 1429

 
Beirava os 11 anos. Durante aquela visita, o silêncio de palavras dava lugar a um assovio feito do pouco ar que passava pela chupeta na boca do pobre homem. Assim, sabiam que ele ainda estava vivo.
A filha do moribundo estava ali, também, ao pé da cama. As duas trocavam umas palavras de vez em quando. Era uma visita de solidariedade. Soube que o pai da colega estava muito doente e quis dar algum apoio.
Às vezes, o apito soava mais alto; às vezes, mais longo. Elas cochilavam e despertavam com aqueles sopros de vida. E rezavam. As mães e o médico disseram que somente um milagre o livraria daquela situação.
Dona Luzia, olhos amiudados, entrou e ofereceu bolachinhas de milho e umas queijadas. Elas repartiram uma dessas últimas.
— Sua mãe leva você pra escola, amanhã?
— Não sei.
— Pode ser que tenha que ir pro enterro, né?
— É.
— E roupa preta... tem?
— Não. Minha mãe diz que eu fico muito magrinha.
— Vai ter que comprar, né?
— Mas ainda pode acontecer o milagre.
Mentira. Ninguém ali acreditava no tal milagre. O assovio estava mais fraco. As pernas, desnudas, pareciam frias. Estavam frias. Será que ele morrera, e elas não haviam percebido? Não. Ainda se podia ouvir o apito.
— E o Serginho? Vocês se encontraram naquele dia?
Serginho era daqueles troféus que toda menina queria ostentar. Era aluno já do científico e pensava em fazer faculdade. O pai tinha um Opala — quatro portas, bege, capô preto — que ele pegava às sextas-feiras.
— Que encontro que nada! Foi quando minha mãe avisou que tinham levado meu pai pro hospital. Marcamos no banquinho, por trás do cachorro-quente de Seu João. Deve estar, até hoje, pensando que eu esqueci... ou desisti...
— Eu posso levar um bilhete pra ele, se você quiser.
— Tá.
O homem anunciou a existência de tanto ar nos pulmões quanto não haveria mais dali a alguns quilômetros, no cemitério. As duas nem se olharam. A filha pôs a mão sobre o braço dele, a amiga massageou-lhe o pé direito, frio desde muito antes. Disse que era melhor calçar-lhe logo as meias. Nunca vira e, muito menos, tocara num morto, mas sempre ouvira dizer que o corpo vai endurecendo até quando não obedece mais a flexões.
Dona Luzia entrou no quarto, fazendo-se anunciar, desde o início do corredor, por uma série de gritos confusos. Entrou e saiu algumas vezes, perambulando que ficou entre o leito do marido morto e o telefone na sala. Finalmente olhou e viu que a amiga da filha, com habilidade de iniciante, terminava de ajeitar a segunda meia do morto.
— Tirem essas meninas daqui! Quem as deixou assim? Saiam! Isso não é lugar para crianças. Não é assunto pra vocês. Vamos logo, saiam!
— Então amanhã não tem escola, né?
— É.
— Quer que leve o bilhete?
“Meu pai ficou doente. Por isso faltei ao nosso encontro. Agora ele morreu. A gente pode se ver depois de amanhã. No nosso banquinho, tá?”
Ela assinou com uma marca cor-de-rosa deixada pelo toque suave da pele fina de seus lábios, coloridos por um bastão que carregava no bolso interno da saia curta de pregas.
Acompanhou a amiga até a esquina de Seu Nivaldo, onde foi comprar umas balinhas de goma. Para açucarar a boca. E as próximas horas.
Da história nasceu um poema: A primeira vez.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Entardecer


O sonho de hoje é dosagem certa
entre o delírio e a ponderação.
Do cansaço das pedras irremovíveis,
fez-se outra realidade,
que encontrou porto
para depois seguir
de novo,
rumo às águas sem contenção
da história,
que tem data:
hoje,
que tem hora:
agora.

sábado, 10 de julho de 2010

Diverso




Às vezes me farto nos versos
E me desprego da rima
Às vezes me solto no verbo
Às vezes me calo na cisma
Às vezes me lanço e tropeço
Às vezes levanto sem birra
Às vezes no céu sou imerso
Às vezes o chão me abisma
Às vezes me basto diverso
Às vezes horror
Às vezes carisma
Anverso
Reverso
Tantos versos
Um prisma


Leia também Meia lágrima.

domingo, 4 de julho de 2010

Chapinha ou Contradiscurso


Dona de um consciencioso discurso, saiu a tempo de fazer nova chapinha pra tentar domar a rebeldia que o DNA plantara em sua cabeça.

(Microconto)

Psiu! Não vale zombar de meu rabisco.


Ah! Você pode gostar de Amores na ponta da língua.

Pessoa


Lá embaixo, Aracaju

Porque sonhar é preciso
sonho ser Pessoa.

Bater o ponto
todo dia
somente lá, no final
depois da palavra certa
no lugar mais exato
da folha do fino papel.

Ou não ancorar no ponto.
Somente navegar
pela neblina das vagas
nos versos deste mar.

Leia também: Diverso

Meia lágrima


Leia também Fissura.

Aff Maria!


Talvez goste de ler Birra infantil.