domingo, 27 de março de 2011

A lavra

Lá, do outro lado de lá
Foto: Aglacy Mary


O que me delineia e localiza
É seu olhar
Seu não desvio da letra
Que desenha meu mundo
E me dá posse de bom punhado

Sei que sou
Porque me vê
Distingue-me da moldura
Das cenas circundantes
Descobre-me a pele
Toca-me a ferida
Recolhe-me o sangue

O que me multiplica e perpetua
É a lavra da pá
Submetida à intenção
Que se sabe nascida
E nunca se vê
Findada
Fincada
Recolhida


Espie também Ensaio Olhográfico

Rubor

Recorte daquela camisa

Aqui dentro
o mundo é rosa.
Mas não ousei
olhar tão dentro.

sábado, 26 de março de 2011

Asas

Um sabiá | Foto: Aglacy Mary
Um sabiá me cantou
um canto verdesperança
de coisas novas tão velhas
quão velhas são as lembranças
de um tempo que se perdeu,
de um piso que se escondeu
em dias que se vão longe
do meu querer e do seu.
Um sabiá trouxe no bico
uma semente prontinha,
o acalento do sonho
de resgatar meu lugar
de uma vida inteirinha
pela palavra que é vera,
pela força que é pura
e pisa ainda descalça
e, intrépida, transpõe
a bruma da noite escura.

sábado, 19 de março de 2011

Carta aberta a Aracaju

Tarde no Mercado


Neste dia em que lhe escrevo
Penso em você 
Na lembrança de um bairro
Muito cantado na minha infância                                              
Morar lá não morei 
Mas lembro de suas cadeiras na porta
De seus meninos na rua 
Do pipoqueiro e sua buzina
Dos gritos do moço do picolé 
Da gaita do homem do quebra-queixo
Dos beijus no cesto daquele garoto 
Eita lembranças doces 
Com discreto sentir salgado
De uma lágrima sorrateira 
Que diz dos bons tempos
De uma vida que vivi 
No sentimento nostálgico
De ouvinte aplicada 
Reclamar não reclamo 
Porque herdei
Conversa na porta
Picolé e pipoca 
Quebra-queixo e beiju
Afinal, do Santo Antônio 
Até a Porto da Folha
Foi só um pulo 
E desse ponto em que me vi 
Só lhe vi crescer, cidade minha
Vi se espalhar seu comércio 
Renascer seu Mercado
Estourar seu São João 
Nas estrelas de muitas sanfonas
Vi pipocarem hotéis e pousadas 
Acolhendo turistas
Vi a orla mais linda 
E as pontes cruzando gentes
Vi o povo admirar o mangue 
Na pedra mais nobre da Nossa Coroa
Coroa do Meio e de luz 
Ainda desejo, cidade querida 
Um tanto de chão de pedra e piçarra
A se erguer no chute da bola 
Do pé do moleque
E a grandeza dos seus areais 
Mas festejo esta imensidão de asfalto
Que vai abrindo seus olhos 
Para novos, ousados e lindos horizontes.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Quem são

Meu céu, meu mar numa terça de folga, numa inteira de vida


Bobos
Da janela assistem às borboletas
Planejando cores para setembro
Chove, choram
Seguem formigas preparando invernos
E torcem pelas cigarras cantoras
Riem todos os dias
Um riso do depois da tristeza
Perdem-se nos atalhos da noite
Buscando ver melhor o dia
Bobos
Vivem poesia

terça-feira, 8 de março de 2011

Alternativa

Mangue-rio-mar / Foto:Aglacy Mary


A menina, de manhãzinha
Só via
Cada nuvem que visitava sua janela.

Toda parecia igual, bem certa,
Sabedora do ofício,
Dona do fazer de nuvem.

Formava, crescia,
Chovia.
Da janela, o tempo se escondia
Por detrás de uma delas.

A menina, antes da sesta,
Só via.
Será que todas chovem?
Que fazem aquelas que não?

A menina, em fim de tarde,
Olhando as nuvens dormentes,
Pensava em outras artes
Para salvar a imagem
De porções não chovedoras
Da natureza tão certa.

A menina, naquela tarde, enfim,
Sorria
Para as nuvens de alforria.
(Não que chover não seja arte das boas)

De Aglacy Mary

sábado, 5 de março de 2011

O poste

Foto: Aglacy Mary

Fica famosa mais uma esquina de Aracaju. É fato que o fato nasceu numa sexta-feira dessas, mas se você ainda não soube disso, a famosidade acontece a partir de agora.

Havia um poste. Quem disse que os postes servem apenas para dar suporte a lâmpadas ou placas de rua? Esse anunciava o encontro da Pedro Calazans com a Maruim, ponto marcado para o encontro daqueles amigos num dia de boa folia momesca. Mas prometia mais. Estavam todos lá, para o início da festa. Músicos provavelmente bebiam água, comiam algo, esperavam a multidão se avolumar. Os da esquina, público fiel à rua, também esperavam. No meio da gente, o encontro com vários passantes, fofoca pra lá, risada pra cá e, sem música que animasse as pernas, elas começavam, naturalmente, a fazer revezamento de flexão para sustentar o peso do corpo, parado e meio enfadado.

A mulher de alguns outros bons carnavais fazia ali um esforço grande. Cliente assídua de agressivas primeiras sessões de fisioterapia, estava meio desconjuntada. Pensou que melhor, porém,  seria a esquina que a cama, pois esta não lhe solucionaria os desconfortos da coluna vertebral. Coluna! Foi assim que veio o poste. O poste mesmo já estava lá. O que veio foi a ideia: espremer-se um pouco entre os populares e alcançar a haste firme que agora parecia só estar ali para isso. Solidários, os amigos se deslocaram para mais perto do poste também. Foi quando tiveram início o show e a saga.

Pernas nuas numa bermuda, a dona da esquina sentiu uma pele na sua pele, da batata para o tornozelo. Olhou para baixo e viu um bêbado clássico acabando de despencar, costas no seu poste. Ele bebia alguma coisa que trazia numa garrafa branca de plástico e exibia na mão esquerda uma aliança. Ela atacou por aí. "Meu amigo, sua mulher está preocupada com o senhor na rua; vá pra casa". Talvez pelo apelo ou muito provavelmente pela intromissão na sua agenda etílica, o homem levantou e cambaleou até a barra de madeira do carrinho de mão de um vendedor ambulante. Poste livre. 

De vez em quando, o povo vai às ruas e esquece que elas têm moradores fiéis, como os cachorros vira-latas, que dispensam banheiro químico (alguns vira-copos também). Na falta de hábito de uso do vaso sanitário, o cachorro que enfrentou a folia e se sentiu apertado mirou exatamente no poste da Calazans com a Maruim. Já viu, né? Na metade da levantada de perna do bicho, a dona da barra de ferro esbravejou um "passa-totó" de espantar até os corajosos mosquitos da dengue.

Quando nada mais parecia ameaçar sua propriedade, a mulher recebeu convite para dançar juntinho. Isso não seria problema se a dança não a levasse para longe do poste. Arriscou, mas fez uma amiga prometer que não deixaria ninguém lhe tomar o monumento da esquina. Dançou. Um olho no par, outro no poste. Voltou logo a seu lugar, preservando as costas e o encosto.

A festa estava à altura do sétimo frevo quando outra moça teve a ideia de se apoiar, e duas mãos direitas seguraram o tal poste. Tudo quase bem. Havia espaço no comprimento do apoio, mas havia um problema de altura. Das mulheres. As baixinhas queriam manter a mão no mesmo pedaço do metal. Os movimentos que elas protagonizaram para disfarçar a disputa faziam lembrar uma exibição de "pole dance" e atraíram a atenção do público. Nossa personagem, mais ousada ou com mais ossos e músculos em processo de ajuste, manteve-se firme em seu propósito e ganhou novamente a exclusividade do espaço.


Daí em diante a história se perdeu na multidão, levada pelo "varre, varre, varre, vassourinha". Soube que, antes disso, boa textura de pele com agradável perfume pousou por ali, num mudo convite a um melhor descanso.  A mulher lhe sentiu as costas convidativas, mas logo conferiu que tinham dona. Não fosse isso, certamente teria dispensado o poste. A qualquer hora passo por aquela esquina, apenas para saber...

Foto: Aglacy Mary

De Aglacy Mary