domingo, 31 de outubro de 2010

Caixa amarela


Tenho umas modas diferentes. A de hoje é preparar uma caixa de presentes cheia de tudo o que a moça do dia puder imaginar. A caixa tem que ser amarela. Como o carneirinho dela, como o seu primeiro poste, como a música preferida, como o chapéu que o Lobo Mau não viu, como a última noite, como o segundo romance, como a uva do outro vinho, como a vinheta de duas manhãs.

sábado, 30 de outubro de 2010

O que é que essa Casa tem?


Felizmente essa turma resolveu colocar A Casa nas costas e sair por aí. O chão foi pisado em 1995, por João Ricardo e Ítalo José, a quem se juntaram outros. Agora, no mesmo endereço, moram, então, Almeida Júnior, Emerson Olivier, Papi, Igor Côrtes, Kátia Gouveia, Brisa Corso, Tatá e Milton Coelho.

João Ricardo é dono do violão e da batuta com que rege a harmonia d'A Casa. Ítalo é dono da voz e da simpatia que conduzem o público à sala de bem-estar. Emerson... esse dá golpes baixos, ou melhor, acordes de contrabaixo que fortalecem as estruturas da habitação. Papi é quem garante o som da campainha, que percute e repercute sempre, de formas diferentes. Igor Côrtes sopra um ar brejeiro de flauta e gaita e não larga a corda. Da viola. Kátia Gouveia escolhe as cores e colore as paredes de... de backing vocal. Brisa Corso vai pra cozinha, melhor lugar, e prepara o tempero: molho à moda do pandeiro. Tatá é quem garante que as paredes tenham ouvidos. Milton desenha ideias e garante que A Casa sempre apareça bem, aos olhos de sua plateia. 

Foi nessa Casa que nasceu Maria Anita, em processo de parto desde 2007.

Alguém ouviu e gostou. Gostou e contou pro outro, que contou pro outro, que contou pro outro que "A Casa do Zé produz um trabalho de palco e de plateia com foco em ritmos populares, canções folclóricas e infantis. Essa construção tem por base o estudo, a pesquisa, o exercício continuado. A imagem resultante é enxuta, livre de adereços desnecessários, como pede seu exigente público".

A Casa do Zé lançará seu CD, Maria Anita, na Biblioteca Pública Epifânio Dória, nos dias 06 de Novembro (às 19h) e 07 de Novembro, (às 17h). O show contará com a participação de Henrique Teles e do Ferraro Trio.

Os ingressos estarão à venda na Pinóquio - Brinquedos Educativos (Av. Jorge Amado, 1116, Loja 3, Tel. 3246-0292).

domingo, 24 de outubro de 2010

O piquenique das tartarugas

(Desconheço a autoria deste texto que reescrevi acrescentando elementos ao enredo. Esta é uma das histórias que correm pela internet e, quando a encontrei, fiquei tentada  a narrá-la no Programa Mural da Rádio Aperipê FM. Ah! Nada de zombar das minhas brincadeiras com as imagens; não sou do ramo.)

Uma família de tartarugas teve a ideia de fazer um piquenique. Foi marcada uma reunião para decidir o lugar onde seria o evento e, três anos depois, quando se encontraram no centro do jardim, escolheram uma floresta ali perto.

Planejaram tudo. Todas deram sugestões sobre o que levar e, ao final de 2 anos, a lista estava pronta. Tomate, beterraba, pepino, berinjela, acelga, escarola, alface, couve-flor, couve-manteiga, repolho, chicória, espinafre, rúcula, abacate, ameixa, banana, pera, uva, abacaxi, siriguela, manjelão, cajá, tamarindo, figo, manga, jaca, nêspera... um enorme cardápio só de gostosuras tartarugueiras.

Em apenas 4 anos, arrumaram tudo em várias cestas, sem esquecerem da toalha quadriculada e de um pote de formigas, porque piquenique sem essas coisinhas não é piquenique.

Finalmente saíram e, já no segundo ano da viagem, encontraram seu belo destino. Levaram apenas 18 meses para dispor tudo à sombra de um belo abacateiro, sobre o grande pano xadrez, e um mês para arrumar os guardanapos. Foi então que descobriram: “Esquecemos o sal!” Um piquenique sem sal seria um desastre, todas concordaram. Após uma longa discussão, a tartaruga mais nova foi escolhida para voltar à casa e pegar o sal, pois era a mais rápida, entre todas ali. A pequena tartaruga gostou da ideia... Gostou nada: lamentou, chorou, esperneou por seis meses. Finalmente concordou em ir, em respeito aos mais velhos do grupo, mas com uma condição: ninguém comeria até que ela retornasse.

Três anos se passaram, e a pequena tartaruga não havia retornado. Cinco anos… Seis anos… Então, ao final do sétimo ano de sua ausência, a tartaruga mais velha não aguentava mais conter sua fome. Anunciou que ia comer e começou a desembalar um sanduíche de repolho com pasta de abacate. Foi de-sem-ba-lan-do, de-sem-ba-lan-do, de-sem-ba-lan-do... Dois meses depois, quando estava pronta para abocanhar a iguaria, ouviu-se um barulho vindo de trás de uma grande árvore. Era a lamurienta tartaruguinha. Ela levantou uma das patas dianteiras e gritou: "Viu?! Eu sabia que vocês não iam me esperar. Agora é que eu não vou mesmo buscar o sal".


Leia também Medida.

sábado, 16 de outubro de 2010

"Pedagogia não!"

Recorte de painel do artista plástico José Fernandes
Restaurante do Camilo / Foto minha, fã do artista


"Pedagogia não!" Ouvi isso do professor de Física, do professor de Biologia, do professor de Química, do professor de Matemática. Um, mais que o outro,  empenhado em não me deixar "desperdiçar inteligência" e as notas 10 que me aprovariam em Medicina ou Direito. Por que teimei e desobedeci meus mestres?

Aos 17 anos de idade, encantada por desenho, pintura, poesia, redação do que fosse, palco de qualquer tipo, publicidade e umas coisas mais, listei possibilidades. Engenharia Civil veio primeiro, depois transformei a ideia em Arquitetura e mais tarde em Desenho Industrial. Pensei seriamente em Psicologia, Direito e Jornalismo, depois de uma adolescência em que brinquei de ser profissional das três áreas. Pelo gosto que tinha por escrever, pensei em Letras, mas tinha medo dos limites da atuação naquela área. Quanto a Medicina, nada de medo de sangue - "Então vai, menina!" -, mas o cotidiano da profissão, até onde pude conhecer, não me atraía. 

Quando pensei em Pedagogia, não sei bem por que, enxerguei a possibilidade de mobilizar mais conhecimentos do que eu via acontecer nas práticas dos profissionais que eu conhecia naquela área. Seria possível? Longe a ideia de ter escola; isso só me ocorreu há 20 anos. Imaginava que a prática pedagógica exigiria a busca de todo o conhecimento do mundo e que isso resolveria o drama decorrente do meu gosto tão diversificado. Demorei a confirmar isso.

O começo dos estudos foi enfadonho, e o intervalo entre as aulas, um desespero. Receitas de bolo e de como segurar marido, coriza de filho e tempo para a aposentadoria eram os assuntos do topo da lista entre as minhas colegas, cuja média de idade era 40 anos. Apenas um homem na classe. Professor de Economia e professor de Estatística empenhados em ridicularizar a mulherada, a começar pela lista de nomes; insatisfeitos por dar aula naquele curso; inconformados com uma aluna média 10. Disciplinas básicas com um conteúdo basiquinho demais para quem fizera o chamado curso científico.

No segundo período, a situação ficou bem mais animada, pois comecei a trabalhar com Educação Infantil - tivera antes disso uma experiência com Ensino Médio (uma garota ensinando a garotos de sua idade) - e a descobrir que toda a experiência humana cabia no espaço de uma sala de aula.

Mais um tempo, e a vida ganhou de vez jeito nobre. Educação elevada à arte.


Aprecie agora Céu de junho.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Lençóis de uma infância


Dia das crianças, e eu aqui me lembrando daquelas brincadeiras... Não conheço quem conheça esta. Pelo menos a última parte dela. 

Primeiro a gente construía a família. Caneta, papel, tesoura e um bocado de capricho pra desenhar e recortar cada figura. Havia um pai, uma mãe, um casal de filhos mais velhos e um casal de filhos mais novos. Para os filhos adolescentes, eu desenhava um namorado e uma namorada, lembro disso. Cabelos crespos e cabelos lisos se misturavam repetindo a vida real das meninas brincantes. O pai era mais alto que a mãe.

O recorte era um capítulo à parte, desafio que eu apreciava. Os cabelos, os dedos, o espaço entre as pernas, o salto do sapato. Todo cuidado era pouco para não amputar os personagens antes de nascidos. Minhas irmãs mais novas ficavam na expectativa do resultado da minha habilidade de usar a tesoura de costura de mamãe para animar os desenhos. Ha! Criança usava a tesoura de ponta da mãe e não se cortava, e raramente cortava o que não devia. Na minha casa era assim. Se bem que eu já era uma menina crescida, e as irmãs mais novas apenas assistiam ao meu engenho. Sem contar que mãe era um personagem que estava sempre por perto.

Os desenhos! Volto a eles. Apesar da moda de papéis finos para cópia de modelos a que todos aderimos, apesar do estímulo dos adultos ao fato de eu conseguir reproduzir fielmente as figuras, reduzindo ou ampliando o tamanho, eu também gostava de inventar os meus próprios. isso era ótimo, porque nunca estava absolutamente certa do resultado da criação. 

Bonecos prontos, a família precisava de um carro. Nada que uma caixa de creme dental não pudesse resolver. Quatro portas, conversível. Ai, ai... parece que estou com um em minhas mãos, agora. Os carros ficavam lindos.

Agora, sim, a construção mais curiosa. A casa. Para a construção da casa, precisávamos apenas de um lençol e da cama de papai e mamãe. Era só subir na cama, lançar o lençol para o alto e esperar o seu pouso. O próximo movimento era olhar as dobras e enxergar o que formavam. Aqui a sala; naquelas ondas de tecido, os quartos; vê a escada? Encontrávamos até a garagem para o carro. E havia sempre um banco comprido, muito parecido com o de nossa casa, que era onde a filha mais velha ia namorar.

Casinha feita de lençol. Ainda não conheço quem brincou assim. É certo que tínhamos também o pé da máquina Singer de minha mãe, que era outra modalidade de casa. Linda, por sinal. Mas a de lençol era coisa muito diferente e sempre nova.

Coisa boa essa de não depender da novidade lançada pela maior indústria de brinquedos do mercado pra ser feliz.