sábado, 20 de novembro de 2010

Novembro


A imagem é do talentoso Maurício Negro.
Uso-a outra vez, com a permissão que ele me deu em 2008

Se pensa meu direito
humanitariamente,
engana-se.

Deixar-me Ser
está bem longe de ser
um espaço de piedade.

Nele não me quero perder.
Novembro-me
em Palmares.
 
Ergo um castro,
como o líder e o poeta,
e olho daqui, destes ares
de minha palavra marrom.
 
Invento cores e pares,
junto liras e tambores.
Há nova flor em meu som.

 
20 de NOVEMBRO
DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Amores na ponta da língua

Mas não tem nada não...

 
Vivia descobrindo erros de português. Era seu trabalho e sua mania. Escrita errada lhe provocava uma gastura que só passava depois da correção. Certa vez acabou fazendo um grande estabelecimento comercial da cidade enfrentar um prejuízo daqueles. É que ela encontrou uma xistice, erro gravíssimo, logo onde? Bem no meio do nome da loja, que estava para ser inaugurada. Como o proprietário da casa comercial, um senhor muito sério e conservador, não escreveu o nome daquele jeito por charme, achou melhor consertar tudo onde já estava posto o erro, inclusive o letreiro da fachada e o projeto de bolo da festa.
De outra vez, houve o caso com o rapaz do violão. Era daqueles de parar o trânsito. Não exatamente pelos belos dotes físicos que a natureza felizmente lhe deu, mas por arroubos românticos que lhe tomavam a ideia em plena travessia da Itaporanga com a Gonçalo, às 18h30 de uma sexta-feira. Ele ajoelhado, no meio do asfalto, declarando à moça das letras certas uma paixão arrebatadora; uns passantes morrendo de inveja; outros morrendo de rir; ela morrendo de vergonha; os motoristas provavelmente morrendo de raiva. Se bem que o buzinaço talvez tivesse como motivo apenas a emoção diante daquela rara cena urbana.
A notícia ruim é que o rapaz, que parecia viver constantemente em estado de graça, morava em outro estado da federação e deixaria a cidade em breve. Ela já suspirava por ele o suficiente para adoecer de saudade, e as cartas foram o santo remédio acertado pelos dois. Ele não tivera tempo de conhecer a gastura da moça. Ela conheceria agora seu jeito “livre” de escrever. As cartas dele vinham com a dose certa de cortejo, que se juntava à distância para garantir a sobrevivência da paixão. Eram linhas ilustradas com desenhos não ensaiados, feitos em esferográfica preta. O moço de fato era de muitas artes. Quem, além dele, comia uma maçã inteira, incluindo o talo e as sementes? Ela achava aquilo uma graça.
Lá pela sétima carta, começando a derrapar sobre a passarela das conjunções e cometendo o pecado da gula diante do cardápio dos acentos gráficos, o violonista desafinou. Segundo o ouvido letrado da gasturenta namorada. Aquela missiva ainda teve resposta, embora em dó menor, e o romance, tropeçando na língua, a portuguesa, rolou oitava abaixo.
Ele casou com uma médica, antiga namorada, de quem não conseguia traduzir uma letra de bilhete sequer, dada a pouca legibilidade de sua grafia. Se de cartas dependesse aquele relacionamento, dependeria também da farmácia da esquina da casa dele. Não era o caso. Os dois evoluíam bem, harmonizavam-se quanto à língua, a universal.
A moça de letras bem cuidadas sentiu saudade e, anos depois, até procurou notícia... Sem sucesso. Conheceu um juiz, casou e nunca mais foi surpreendida com um porquê mal redigido. Com o tempo, porém, acabou descobrindo no marido a total falta de condição de pontuar corretamente orações adjetivas. O desconforto que isso lhe provocou era nada, contudo, perto do que no início lhe pareceu simplesmente impressionante: o vetusto português que ele exibia nas pretorias onde atuava. A falta de graça e de inteligibilidade na escrita do magistrado foram fatais.
Às vezes a professora suspira de novo. Volta à Itaporanga com a Gonçalo e pensa em como poderia ter a língua mais solta. Imagina também quantas outras destinatárias tiveram as cartas do moço do violão. Quantas teriam sido mais sensíveis que ela, mais inteligentes, mais felizes.

Publicado no Cinform



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Falsa verdade.

sábado, 13 de novembro de 2010

De.cisão


E não me venha com amanhã-eu-volto.
Não quero mais
sua herança de alguidar,
seu sorriso desamparado
e esta vigília faminta.

Estou certa, minha visão é nítida.
Não quero mais
a ludicidade de suas mãos,
seu pousar sorrateiro
no muro de minhas certezas.
 
Não quero.
Seus desejos de meu sono manso,
a falta da luz de seus olhos
nas noites nervosas de meus três dias tortos.
 
Não tenho dúvida.
Não quero.
 
E não me venha com pretexto
de casaco morno esquecido na varanda fria
ou imprescindível travesseiro de penas
de não sei que ave.
 
Não quero mais que me queira
assim.
Então rompa a trava da porta.
Não quero.
Não volte.

Ou fique até depois de amanhã.



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Falsa Verdade

Foto: Eclisse

— Boa tarde. Posso ajudar? O senhor está procurando...?
— A sala do Dr. Gerard, por favor. Falei com alguém pelo telefone. Disse-me que atendia aqui. Preciso dele com urgência. Como encontro o doutor, pode me dizer?
— Encontrou. Sou eu mesmo, a seu dispor. Acompanhe-me. Vamos entrando.
No consultório, devidamente acomodado num estofado que convidava mais para uma sesta que para um papo-cabeça, o pobre homem começa a despejar fatos conturbados de sua malograda existência, típica hiena daquele desenho da tv ainda em preto e branco (“Oh, céus! Oh, vida! Oh,dia! Oh, azar!”):
— Doutor, meus dias são intermináveis. Não paro um só segundo, nem quando durmo. O senhor precisa me ajudar com isso. Acordo às 5h30, mas até chegar aí, já sonhei com o dia quase inteiro. Sonho que cortei a grama, lavei o carro, dei banho nos cinco cachorros e servi a ração das feras numa mistura de carne cozida com arroz. E o pior vem agora, quando me acordo, já cansado. Aí, sim, começo pra valer, da grama até os cachorros. E ainda tem Gabi e Ciça. Tenho que levar as meninas pra escola, é claro, mas não antes de passar o uniforme de cada uma, vestir as duas direitinho, pentear todos aqueles cachos compridos, conferir a lição da que dormiu mais cedo e servir a vitamina de abacate. De Ciça. Porque Gabi gosta de uma gororoba de banana, cereal, leite, mel e pó de casca de ovo. A essa altura, já deu pra ver que são 6h30, já sei que vou chegar atrasado no escritório e já tô na agonia. Lá o dia vai começar. De novo.
— E isso aí, o que é?
— O quê? Ah, essa tremedeira na minha perna é coisa que não me larga, doutor. É normal quando fico ansioso. Acontece sempre.
— E...
— Esta piscadela interminável? Só acontece quando a perna treme.
— Vejo que seu rosto...
— Estes espasmos na bochecha direita? Toda vez que fico piscando direto assim, dispara essa tremedeira louca. Uma hora é dum lado, outra hora é do outro. Ai, doutor, que meu coração acelera só de pensar nesse sufoco. E veja que ainda nem contei a parte pior, que é quando eu me encontro com meu chefe ranzinza. Aí sim, a casa cai. Quantos remédios tarja preta o senhor vai receitar pra resolver meu martírio? É caso pra internamento, não é?
— Calma. Relaxe, homem. Respire. Sabe como se come um elefante, não é? Por partes. Então, pra começar conte-me tudo o que sabe de sua própria concepção. Sua mãe teve problemas na gestação? Como foi o parto? É filho natural? Foi adotado? Fale-me de sua infância. Fale tudo. Estou aqui para ouvi-lo e ajudá-lo.
Os dois homens são interrompidos pela porta, que se abre sem anúncio. Surge uma mulher baixa, de jaleco verde e olhar decidido, visivelmente aborrecida, palavreando de modo inflamado parecendo mãe quando o filho já aprontou todas:
— Outra vez, Seu Geraldo? Seu caso está ficando complicado. Ninguém por aqui suporta mais essas suas tramas. O estacionamento está lá, abandonado, ninguém sai, ninguém entra.
— Mas...
— Nem mas nem meio mas. Definitivamente, afaste-se dos pacientes. Volte ao seu posto de trabalho! Chega de engodo! Está na hora de procurar tratamento, ou já sabe, não é?
Seu Geraldo sai cabisbaixo, chutando latas invisíveis, resmungando qualquer “mas eu merecia uma chance”.
O infeliz que buscava ajuda, ainda jogado no divã e pouco entendendo da discussão entre a mulher de jaleco e o “doutor”, balbucia qualquer coisa e desanda numa incomodativa performance de tiques digna da interpretação de Jim Carrey em “O Mentiroso”.

Publicado no Jornal Cinform - Aracaju - SE, 01 a 07 de novembro de 2010 - Ano XXVIII, edição 1438.


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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nordestinidade - pra não dizer que não falei

Foto:
Alex Uchoa (www.pbase.com/alexuchoa)


Vejo em mim um SerTão múltiplo e singular 
que só poderia ser nordestino 
como grandes Chicos:
o rio em sua foz,
o Science e sua voz, 
o Dantas, de rico trato verbal,
a Praça, patrimônio 
do povo, mundial.

    Mais poesia: Endermecida.

Da saparia


Que a tarde nos dê novo olhar
Foto: Aglacy Mary

Manhãs diafragmáticas
me perguntam, 
marioquintanamente,
se engolir sapo seria mais fácil 
se ele lavasse o pé.