domingo, 20 de fevereiro de 2011

Lapso

Da coleção "Detalhes da cidade"


Foi por pouco, mas me vi como ainda não sei
Mostrei-me como não tenho certeza

Perdi-me do começo
E da ideia de fim

Espero que não tenha visto
Se viu, que se confunda e que se perca
Como me perco em mim

De Aglacy Mary

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ideias de uma infância

Essa eu "peguei" na Aperipê


Os sinaizinhos pretos sobre minha pele eram sementes das bananas engolidas na forma da vitamina diária que mamãe fazia. (Eu só não entendia como é que eles conseguiam posicionar-se de modo tão simétrico no meu corpo.)


Todo mês no pódio, ano a ano, recebendo medalha de ouro pela média 100,0 nas provas, ouvindo que eu nunca faria menos... 'E quando eu tirar 99,9?' (Aconteceu.)


Meu cocô só obedecia à paciência de meu pai: "Degavarzinho" (brincava assim com a palavra, eu no troninho, ele acocorado diante de mim).


Papai e mamãe fizeram um combinado muito justo: três filhos com a cor de um, três filhos com a cor do outro; dos seis, três com os cabelos de um, três com a mistura dos dois.


Uma de minhas bonecas falava, sorria, chorava, comia... Era minha irmã caçula.


Minha mãe não poderia ficar doente. Como o meu pai iria sem ela ao mercado, no sábado? 


Um dia um peixe trará de volta meu sapatinho perdido na Ponte do Imperador.


Dona Lucy sabia tudo. (Sabia mesmo.)


As mangas do quintal do vizinho eram do vizinho, mesmo que caíssem no nosso quintal. (Código de família.)


Leitura rápida: Tô de frase.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pela hora da morte

Pensei no novo título depois de já publicado no Cinform

A mãe morreu, e a filha mais velha, Dona Nalva, que devia beirar seus 48 anos, estava aos prantos. Apesar da dor, o fato pedia providências, e ela estava disposta ao que se constituía necessário.
Um amigo se ofereceu para acompanhá-la até a casa funerária mais tradicional da pequena cidade, e lá, entre profundos soluços e repetições de “Oh, que dor, perdi minha santa mãezinha!”, a senhora solicitou que lhe indicassem “um caixão à altura das qualidades de uma mãe tão amada”. Foi atendida pelo dono, velho conhecido da família da defunta. Ele prontamente começou a descrever o que tinha ali, gabando todos os seus produtos. 
Destacou o conforto garantido ao cliente nos três modelos de luxo. Largura para deixar qualquer corpo à vontade até para virar de lado se pudesse; travesseiro de penas; forro de veludo e cetim; madeira nobre; cortina de seda pura; alças em aço; todo material interno antialérgico. A filha chorosa arregalou os olhos para aquela preciosidade, quando ouviu que os preços iam de 1.600 a 2.800 reais. “O quê?! Isso é preço que se apresente, Seu Tavares? Oh, minha mãezinha! Fico sem ela e ainda querem me tirar os olhos da cara. Eu pedi um caixão, não pedi uma joia pra enterrar minha mãe. O senhor não entende que essas coisas não têm valor no fim da vida?”. E chorou mais, sobre uma toalha amarela e felpuda, com acabamento em renascença.
Seu Tavares rapidamente se afastou da seção de luxo e apontou peças bem arrumadas, mas de preços mais baixos, na faixa de 900 a 1.400 reais. Dona Nalva, que neste momento cobria os olhos com as mãos e chorava novas lágrimas, enxugou o rosto com a toalha e soltou um grito: “Quanto?! O senhor está me estranhando, é?” E tornou a se lastimar: “Ohhh, quanta dor...”
O dono da funerária abandonou também a ideia de semiluxo e exibiu dois exemplares da categoria dos intermediários, entre 600 e 800 reais, usados por muitos ex-moradores do bairro de Dona Nalva. Um dos caixões inspirou a desconfiança de que tivesse apenas um verniz de madeira. A mulher pensou que aquilo provavelmente era folha de compensado. Enraivou-se e engoliu o choro lamuriento: “Mas o que é isso, Seu Tavares?! Eu quero enterrar minha mãezinha, e o senhor não pode negar a ela um caixão decente por um preço razoável. Onde está a amizade que temos há tantos anos?”. Quando voltou a chorar, parecia inconsolável.
Querendo dar um fim àquela novela, o amigo que a acompanhava tomou a iniciativa e fechou negócio com um caixão mais simples, de preço certamente bem módico, que teve o consentimento da pechincheira. Acertaram hora e lugar de entrega da encomenda, e Dona Nalva saiu reclamando de todo aquele transtorno. “Oh, como dói perder uma mãe e ainda passar por esse aperto pra lhe dar um enterro digno”.
Finalmente, já no velório, começou-se a ouvir aquele zunzunzum. Dona Nalva chegou com uma recarga de lenços para secar a grande dor e quis entender a razão do tumulto em torno do caixão da mãe. Quase sofreu um desmaio. Sendo mais dada a escândalos do que a sair de cena, fez reverberar um “eu não acredito nessa afronta!”. O caixão a preço módico, pra desgosto total da mulher, não permitia que se visualizasse a cara da morta. “Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto! Como é que Seu Tavares me manda um caixão sem o vidrinho pra mostrar, pela última vez, o rosto de minha mãezinha?”. Enquanto seu próprio rosto se desmanchava em águas, chegaram uns homens carregando um... aquilo não podia ser um caixão. O objeto era tão luxuoso que só deveria ser chamado de esquife ou ataúde, se é que não há nome ainda mais elegante para a coisa. Parecia um carrão importado, pelo tanto que impressionou os convidados, ou melhor, os condolentes. O tio que morava fora e não veio para o sepultamento encomendou o presente. O que era lágrima virou espanto e uma quase alegria. Dali você pode imaginar os ares que ganhou o velório com a inusitada troca de caixão.
Finalmente tudo certo, não fosse a diferença entre a largura da rica urna mortuária e a largura do jazigo, construído para caixões populares. O jeito foi enterrar a mãe de Dona Nalva assim, de ladinho.


Grata aos amigos que, numa comemoração de aniversário, 
contaram tantas histórias de velório.
(Aglacy Mary)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tô de frase

Foto: Aglacy Mary

Nunca aprendi a não ver poesia nas coisas. 

Minha mãe passava horas repetindo... eu, porém, só entendia que tudo passa quando o outro dia nascia.

Taquicardia, bradicardia, arritmia... 
Meu coração pede um tempo todo dia.

Uma gente não se constrói 
se não se tem por referência.

Depois de vencida a guerra, cuide especialmente dos soldados que sempre estiveram na primeira fileira. 
São eles os autores da vitória.

A imaginação é sobrevivente de muitas verdades.

Hora de casar: apenas quando a paixão passar.

Às vezes dá vontade de não saber...

Tô quase chegando neu.


De Aglacy Mary

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