segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pela hora da morte

Pensei no novo título depois de já publicado no Cinform

A mãe morreu, e a filha mais velha, Dona Nalva, que devia beirar seus 48 anos, estava aos prantos. Apesar da dor, o fato pedia providências, e ela estava disposta ao que se constituía necessário.
Um amigo se ofereceu para acompanhá-la até a casa funerária mais tradicional da pequena cidade, e lá, entre profundos soluços e repetições de “Oh, que dor, perdi minha santa mãezinha!”, a senhora solicitou que lhe indicassem “um caixão à altura das qualidades de uma mãe tão amada”. Foi atendida pelo dono, velho conhecido da família da defunta. Ele prontamente começou a descrever o que tinha ali, gabando todos os seus produtos. 
Destacou o conforto garantido ao cliente nos três modelos de luxo. Largura para deixar qualquer corpo à vontade até para virar de lado se pudesse; travesseiro de penas; forro de veludo e cetim; madeira nobre; cortina de seda pura; alças em aço; todo material interno antialérgico. A filha chorosa arregalou os olhos para aquela preciosidade, quando ouviu que os preços iam de 1.600 a 2.800 reais. “O quê?! Isso é preço que se apresente, Seu Tavares? Oh, minha mãezinha! Fico sem ela e ainda querem me tirar os olhos da cara. Eu pedi um caixão, não pedi uma joia pra enterrar minha mãe. O senhor não entende que essas coisas não têm valor no fim da vida?”. E chorou mais, sobre uma toalha amarela e felpuda, com acabamento em renascença.
Seu Tavares rapidamente se afastou da seção de luxo e apontou peças bem arrumadas, mas de preços mais baixos, na faixa de 900 a 1.400 reais. Dona Nalva, que neste momento cobria os olhos com as mãos e chorava novas lágrimas, enxugou o rosto com a toalha e soltou um grito: “Quanto?! O senhor está me estranhando, é?” E tornou a se lastimar: “Ohhh, quanta dor...”
O dono da funerária abandonou também a ideia de semiluxo e exibiu dois exemplares da categoria dos intermediários, entre 600 e 800 reais, usados por muitos ex-moradores do bairro de Dona Nalva. Um dos caixões inspirou a desconfiança de que tivesse apenas um verniz de madeira. A mulher pensou que aquilo provavelmente era folha de compensado. Enraivou-se e engoliu o choro lamuriento: “Mas o que é isso, Seu Tavares?! Eu quero enterrar minha mãezinha, e o senhor não pode negar a ela um caixão decente por um preço razoável. Onde está a amizade que temos há tantos anos?”. Quando voltou a chorar, parecia inconsolável.
Querendo dar um fim àquela novela, o amigo que a acompanhava tomou a iniciativa e fechou negócio com um caixão mais simples, de preço certamente bem módico, que teve o consentimento da pechincheira. Acertaram hora e lugar de entrega da encomenda, e Dona Nalva saiu reclamando de todo aquele transtorno. “Oh, como dói perder uma mãe e ainda passar por esse aperto pra lhe dar um enterro digno”.
Finalmente, já no velório, começou-se a ouvir aquele zunzunzum. Dona Nalva chegou com uma recarga de lenços para secar a grande dor e quis entender a razão do tumulto em torno do caixão da mãe. Quase sofreu um desmaio. Sendo mais dada a escândalos do que a sair de cena, fez reverberar um “eu não acredito nessa afronta!”. O caixão a preço módico, pra desgosto total da mulher, não permitia que se visualizasse a cara da morta. “Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto! Como é que Seu Tavares me manda um caixão sem o vidrinho pra mostrar, pela última vez, o rosto de minha mãezinha?”. Enquanto seu próprio rosto se desmanchava em águas, chegaram uns homens carregando um... aquilo não podia ser um caixão. O objeto era tão luxuoso que só deveria ser chamado de esquife ou ataúde, se é que não há nome ainda mais elegante para a coisa. Parecia um carrão importado, pelo tanto que impressionou os convidados, ou melhor, os condolentes. O tio que morava fora e não veio para o sepultamento encomendou o presente. O que era lágrima virou espanto e uma quase alegria. Dali você pode imaginar os ares que ganhou o velório com a inusitada troca de caixão.
Finalmente tudo certo, não fosse a diferença entre a largura da rica urna mortuária e a largura do jazigo, construído para caixões populares. O jeito foi enterrar a mãe de Dona Nalva assim, de ladinho.


Grata aos amigos que, numa comemoração de aniversário, 
contaram tantas histórias de velório.
(Aglacy Mary)

Um comentário:

  1. De ladinho...? Aff, depois de tudo, perdeu a classe. Mas também, classe pra quê, né?

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