sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A merenda


Cinform - Aracaju-SE, 18 a  24 de outubro de 2010 - Ano XXVIII, edição 1436

Não sabia se havia tristezas na vida. Eu era muito menina. Meu único desagrado era mesmo a solidão das manhãs. Solidão de quatro irmãos, todos saindo para a escola, e eu, por trás da grade baixa de um muro baixo de uma casa de portas de vidro sem cadeados ou sistema de alarme, acenando e embalando minha vontade.

No último dia de outubro daquele 1970, porém, minha mãe anunciou, bem no meio do jardim de rosas brancas:
— Agora que fez cinco anos, filha, está pertinho do tempo de ir à escola.
Foi a melhor notícia da minha vida. Só era preciso esperar o Natal, depois a Festa de Ano mais o Carnaval. Não. Ainda teria que ver passar o aniversário de meu irmão. Não. O primeiro dia de aula era justo o dia do aniversário dele. Eu bem lembrava disso porque o danado culpava, por tamanha coincidência, umas tias nossas, professoras primárias.
Dona Lívia, minha madrinha, que me dera presentes tão especiais quanto aquele seu jeitinho doce de andar, sorrir e falar, comprou-me a merendeira mais moderna — hoje desandaram a chamar aquilo de lancheira, como chamam meus antigos diademas de tiaras —, que tinha até garrafa térmica e uma trava que fazia plac!, um barulhinho que era sucesso na escola. O leite estava sempre morninho quando o badalo do sino anunciava a pausa entre as lições de aritmética e os exercícios de caligrafia.
Dali a mais dois anos, minha letra já era muito elogiada. É verdade que saía da linha, vez sim, vez não, mas poucas vezes a diretora me fazia apagar tudo. O problema era a tabuada. Não. Não era a tabuada o problema. O problema era dizer a tabuada em companhia de um pedaço de... não me lembro se era madeira... devia ser... Sei que, numa das pontas, tinha algo que parecia uma bolacha gorda, redonda, pesada. Muito pesada.
Bem, mas vamos, de fato, à tabuada. Eu gostava de pensar nos números. O problema era lembrar de tudo, em poucos segundos, com aquela bolacha ali, ansiando pela palma da minha mão. Em casa, minha mãe tomava-nos a tabuada todos os dias:
— Sete vezes uma?
— Sete.
— Sete vezes duas?
— Sete vezes duas...
— Sete vezes duas, menina?
— Catorze. Sete vezes duas, catorze.
E assim ia.
Era uma segunda-feira e, no domingo, mamãe preparara parte da merenda de que eu mais gostava. Minha merendeira agora tinha um lindo astronauta na frente (astronauta andava em alta, sempre andou) e a tampa da garrafa era mais comprida e não possuía alça como a outra. Ah, sim, estava dizendo da merenda: o leite morninho de sempre e um pedaço de bolo. O leite vinha do sítio de Dona Cibele, irmã de minha madrinha. Mulher elegante, fazia gosto apreciar. Pois bem, naquele dia do meu terceiro ano de escola, levei leite e bolo na merendeira. Não qualquer bolo. O bolo de ovos de Dona Lucy. Modéstia bem à parte, minha mãe fazia o bolo de ovos mais delicioso das redondezas. Depois da tabuada, seria a hora da merenda. Eu já estava na casa dos sete. Nunca voltara de casa. Chegou minha vez:
— Sete vezes uma?
— Sete.
— Sete vezes duas?
— Catorze.
— Sete vezes três?
— Vinte e um.
— Sete vezes quatro?
— Vinte e oito.
— Sete vezes cinco?
— Trinta e cinco.
— Sete vezes seis?
— Sete vezes seis...?
— Sete vezes seis! Responda, menina!
Você sabe de onde veio a minha voz naquele momento? Não veio... Eu não podia acreditar que não sabia dizer quanto era sete vezes seis. Depois, não acreditaria que minha professora, com uma raiva autorizada pelos tempos de então, deu-me uns beliscões dizendo que era para que eu deixasse de ser burra e aprendesse, definitivamente, que sete vezes seis é igual a quarenta e dois. "Ouviu? Quarenta e dois. Repita: quarenta e dois". Sem voz, repetir não poderia; chorar talvez. E depois tentar engolir o choro com o leite do sítio e o bolo de minha mãe, que acabaram rejeitando aquela tarefa. Juntos, leite e bolo devolveram o choro sob forma de uma pasta amarela, fedida e gosmenta que cobriu minhas pernas, inundou minhas meias brancas e tingiu meu Vulcabrás quase novo, engraxado naquela manhã.
Nunca mais quis juntar bolo com leite.

domingo, 12 de setembro de 2010

Lado B

 
Ele congrega
Eu conluio

Ele conforta
Eu confranjo

Ele conduz
Eu confundo

Ele condiz
Eu contesto

Ele confia
Eu confronto

Ele conforma
Eu conflagro

Ele contenta
Eu condeno

Ele contempla
Eu consumo

Ele consente
Eu confisco

Ele nau
Eu continente


Este é papo para educadores: Um dia de tonhice.

Roteiros


Caderno de Cultura do Jornal Cinform - Aracaju - SE, 11 a 17 de outubro de 2010 - Ano XXVIII, edição 1345
      
A noiva era médica. Nela ele admirava a ciência com que se lançava ao desafio de descobrir o melhor caminho senão para debelar a doença, ao menos para enganá-la; a técnica com que agia, horas a fio, naquele laboratório, palco de incansáveis ensaios em que homens e ratos se uniam – mais a gosto dos homens que dos bichos – para o bem da humanidade; a competência que a destacava entre tantos outros pesquisadores. Uma mulher à altura da formação acadêmica avançada que ele fizera.
Para o casamento, faltava apenas resolver a questão de onde morar. No apartamento dele ou no dela? Precisavam equacionar as distâncias entre casa e trabalho dos dois. Além ou aquém da serra? Ele sentia dificuldade de afastar-se daquela região onde cultivara tantos sonhos e vivera tantas realidades. As viagens para o interior e o retorno, a serra ainda lá. Decidiram. O melhor seria vender os dois apartamentos e comprar aquela casa, ao pé da serra, do lado de cá, pois ele fazia questão de manter seu roteiro de quase todos os dias.
Finalmente a casa. Era linda. Mas queriam que fosse mais que isso. Que fosse à feição deles. Não tiveram dúvida. Iniciaram a reforma. Cuidaram para não entregar o sonho de suas vidas nas mãos de qualquer profissional, e a obra foi tocada de forma que ele dispensava todo seu tempo livre àquilo.
Era um sábado de outubro quando, exausto, saiu do projeto de casa para seu apartamento. Tinha aquele convite para o Municipal, e a música sempre fora sua boa companheira. O espetáculo era de dança, mas uma e outra andam sempre juntas. Pena que a noiva estivesse fora, num congresso. Se bem que ela não apreciava tanto a arte a ponto de passar a noite em uma poltrona — por mais confortável que fosse — avizinhada de tantas outras, para assistir ao que poderia alcançar em um DVD, na intimidade de sua cama, com o controle remoto a seu dispor.
Banhou-se e foi. No caminho, buscou um amigo, o que lhe havia falado do espetáculo. Descobriu que a primeira bailarina era responsável pela destinação da bilheteria daquela noite a um projeto que reunia 1.500 crianças em aulas de dança. Ela era autora do projeto, que contava agora com o apoio de inúmeros artistas.
No palco, viu a nobreza da atitude somar-se à precisão dos movimentos, em um virtuosismo inigualável — técnica e emoção em um só corpo. Agradeceu a não sei quem por não se ter rendido ao cansaço naquela noite. Quando a música repentinamente cessou e o movimento fez-se pausa, ele tornou a respirar.
— Vamos jantar conosco?
— Você e...
— Ela foi trocar-se. Está vindo.
Claro que ele a reconheceu. Não pelas feições do rosto; pelo poder de perturbar sua alma. No palco e ali, ao alcance de um sopro de ar que guardava, premido, em seus pulmões.
— É sua...
— Sim, minha irmã. A irmã mais divina que um homem pode ter.
Os dois não se separaram mais. A casa ao pé da serra voltou a ser dois apartamentos, e a vida ganhou jeito novo. Qualquer coisa parecida com um beijo ou um cansaço de fim de tarde. Ou ainda com uma capacidade de pairar no ar, ágil e veloz.
Um ano inteirinho se passou. Viam-se todos os dias. O frigobar de um já havia feito intercessão com o micro-ondas do outro, e já não era raro o beijo matinal com sabor de beijo apenas. O clã do rapaz aprovara a usurpadora de corações não tão valentes, e ela não dependia do sim de quem quer que quisesse dizê-lo.
Voaram mais dois meses. Era um inverno ameno. A noite pedia chocolate quente, edredom macio e um bom livro. Ou um bom amor. Os dois até. Havia um jeito de coisa nova, suspensa como beija-flor na intenção de seu querer. Ele assistia à beleza dela, linda e irrequieta naquele pijaminha de seda japonesa – qualquer outra lhe caía pesada demais, sobre a pele delicada e fina – e, certo de que não viviam ali um encontro fortuito, decidiu que aquele seria um bom instante para entrelaçar a futuridade de suas histórias. Ele o sabia. Ela o soubera. Com a mesma leveza perturbadora que um dia lhe exibira no palco, avizinhou-se de seu ouvido e calou suas intenções:
— É tempo de espalhar sonhos, meu amor. Vamos para a Europa, na próxima semana, e de lá, para o mundo inteiro: eu e o meu balé.
Leia também Microcontos I.

sábado, 11 de setembro de 2010

Oba! Obama

Guardando aquele novembro de 2008

Nos mares, as dores
Renderam tambores
Carga humana
Origem - África

Mama

Duke Ellington, Armstrong
Charlie Parker, John Coltrane
Milles Davis, tantos pares
Som que o mundo

Aclama

Nos salões
Notas e passos
Segregados
Soam misturados

A trama

Nat King Cole, Jesse Owen
L. Hansberry, Ray Robinson
Sammy Davis Jr. e os Jacksons
Música, dança, palco, esporte

A fama

E vai à luta
Rosa Parks
Tomando assento
De seu direito

Alabama

Foram nove em Litlle Rock
Estudantes
No Ginásio
E a Guarda Nacional

Inflama

Dão-se à mistura
Sem medo da sorte
Negros e brancos
Na Carolina do Norte

O drama

Vence a porta
Da universidade
James Meredith
O Mississipi

Clama

Quarto de milhão
De negros e brancos
Em marcha a Washington
Por direitos civis

A rama

Verão de 64
Por nova lei
Estudantes, polícia e Ku Klux Klan
Novamente o Mississipi

Em chamas

Um Nobel
Ao nobre
Luther King
Direitos, integração e Paz

Proclama

Voto negro, negra voz
No Alabama
Realeza de King
Abre novo

Panorama

Malcolm X
No contraponto sangra
Black Power...
A dor

Exclama

Jesse Jackson, Young, Lewis…
Boas lições mandeláfricas
E uma voz soberana:
"I have a dream"

Obama

Destaca Harvard
Vence o pleito
Vence as torres
E o ataque

Osama

Diga ao mundo
Que o belo espelho
Da Casa Branca
Agora vê cabelos crespos

A dama

Salve a
esperança
A diferença
A igualdade
Salve a identidade


Hosana!


Poema já publicado no Overmundo, em nov/2008

Esdrúxulus

Tentando lembrar onde vi a ópera
 
Há escondido um perículu
Aqui deste lado da ínsula.

Uma noite páupere,
Um dia frígidu,
Duas ideias de ásinu.

Para fugir à ténebra,
Talvez um miráculu.

Leia Lado B.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Verso feito

O doce é sergipano. Doce de que mesmo?

se me perco da poesia
o que sobra
?
feijão
arroz
e
bife com fritas
restos

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Birra infantil

Eu quero, eu quero, eu quero! Ou não

Ilustração de Victor Cardozo (2007)

Talvez você já tenha lido muito sobre o assunto, mas continuam em pauta questões sobre a birra quando pais se encontram, quando professores debatem, quando pais e professores de crianças pequenas conversam. Não resisti, portanto, ao inesgotável apelo, e aqui estamos de volta ao velho tema.

O que significam esses ataques desconcertantes que acometem crianças de um, dois, três anos e deixam os pais de cabelo em pé? Cada fase tem as suas razões. Aproximando-se de um ano de idade, a criança está muito atenta a respeito de todo o ambiente ao seu redor, que reconhece e apreende pelo contato físico, descobrindo algo novo a cada instante. Quando alguém limita sua ação, o que se faz necessário muitas vezes, ela reage com um faniquito, como todo mundo já pode ver. Entre um e dois anos, sua ação exploratória ganha força com a aquisição da marcha. Agora o mundo está, literalmente, a seus pés, e quem quiser contrariar isso vai assistir a um ataque mais vigoroso. Com o desenvolvimento da fala, nasce a ideia de que tudo lhe deve ser possibilitado, de que ela é quem manda em todas as situações. Assim, determina que vai comer brigadeiro no café da manhã, ou brincar no parque com a roupa que foi feita para usar no casamento da tia. Vai contrariar nosso anjinho? Prepare-se para um CTI (Chilique Total e Irrestrito). Finalmente com maior condição de organizar-se, a criança, a partir dos quatro anos, pode receber mais incumbências, assumir responsabilidades, decidir sobre algumas questões. Isso normalmente reduz a incidência de birras.

É certo que, em alguns casos, esse comportamento pode significar a necessidade de alguns cuidados especiais. Crianças submetidas a situações de estresse, crianças deprimidas ou com distúrbios de hiperatividade, por exemplo, fazem birras que chamam atenção ou pela frequência, ou por não corresponderem ao fato que as teria provocado. Se a família sente-se insegura para avaliar a situação, é recomendável conversar com um psicólogo infantil.

Bom lembrar que muitas crianças levam a birra até muito depois dos três anos, por pura falta de firmeza do adulto, que teme ser autoritário, ou opta por deixar para mais tarde a tarefa de educar. Desde pequena, ouvir "não" é saber que há limites para sua vontade, para o seu poder. Por menos que pareça, isso dá segurança aos nossos pequenos, que, de um a dois anos, já compreendem o sentido da negativa. O não — firme — que vem de quem nos ama é preparação para as frustrações vindas de outras partes.

Por outro lado, tenha cuidado com os excessos. Às vezes, diz-se não à toa, para algo que poderia tranqüilamente ser permitido. É como a situação em que B., três anos, estava brincando com dois carrinhos, mas pediu um terceiro, aquele amarelo, que estava na parte mais alta do armário. "Não; você já tem dois", disse a mãe. Depois, concluiu que, na verdade, não havia necessidade de negar o brinquedo, mas o espetáculo já havia começado. À toa. É possível também evitar tantas outras situações desagradáveis usando o conhecimento que temos sobre a criança pequena. Você é capaz de prever, por exemplo, que, depois de certo tempo fazendo compras, ela vá precisar de algum bom entretenimento ou de uma parada naquela maratona estressante; continuar, naquele dia, vai resultar em birra na certa.

Tenhamos claro que uma manha ou outra, de vez em quando, faz parte do universo infantil. Mesmo a criança que tem um perfil mais meigo, por vezes, expressará sua raiva por meio da birra. O que nos deve preocupar é o uso costumeiro do artifício para atingir um objetivo. A birra torna-se frequente quando a criança percebe que ela funciona. Chora uma vez e consegue segurar a mãe pelo tempo que queria, ou ganhar o sorvete, ou livrar-se de uma situação incômoda. Repete a ação e é bem sucedida novamente. Agora é fácil — basta repetir a estratégia e plim! Seu desejo é realizado. Os pais podem ter até folga — tempo, dinheiro — para atender aos caprichos do filho. O problema é o que o presente está ensinando para o futuro: nada de flexibilidade, adaptabilidade, nada de esforço para conseguir algo. Basta bater o pé.

Agora, a pergunta que não quer calar: o que fazer quando a criança grita, esperneia, chora, insiste em querer ou em não aceitar algo? "Eu dou uma palmada e resolvo o assunto", dizem uns. A maioria dos pais pode até adotar a palmada, mas concorda com o fato de que corre o risco de precisar, com o tempo, dar mais de uma ou dar uma palmada mais forte que a anterior para ver algum efeito "positivo". Bem, essa questão é tão velha quanto a própria birra.
Descartada a punição corporal, como reagir aos famosos chiliques da criança? Uma boa recomendação é considerar o motivo do aborrecimento. Há ocasiões em que o ideal é o simples acolhimento, como na reação ao cansaço. Pinta o sete, o sono chega e, até se entregar, a criança fica mal-humorada, tem mais dificuldade de enfrentar adequadamente uma vontade contrariada. O colo do adulto é tudo de que ela precisa nessas horas. Em outras situações, quando insatisfeita consigo mesma — "não consigo encaixar os blocos!", "não sei desenhar um leão!", "não consigo pôr sozinha a camisa" — é preciso que seja estimulada a enfrentar os desafios e que a ajudem a perceber que, se ainda não sabe isso, sabe aquilo outro. Festeje, com a criança, as suas capacidades.

Você conhece também as típicas crises de "eu quero a sua atenção a-go-ra, só para mim". Nesse caso, lembre-se de dar atenção à criança sempre que ela estiver fazendo algo positivo, elogiável, ou quando, simplesmente, não estiver com manhas. Diante da birra para conseguir um intento, o melhor é ignorar o que está acontecendo desde que a criança esteja fisicamente segura no ambiente em que se encontra. Mas estou falando de ignorar mesmo. Não adianta ficar do lado do filho repetindo não sei quantas vezes: "Eu não vou lhe dar sorvete agora. Pare de chorar. Eu já disse que, mais tarde, a mamãe dá sorvete". Você pode até não dar mesmo o sorvete, mas fica ali, alimentando aquela novela, dando uma atenção totalmente inadequada à história, repetindo explicações desnecessárias. O melhor que você tem a fazer é afastar-se dizendo que compreende sua raiva e que retorna quando ele quiser conversar. Permitir que o seu pequeno sinta raiva ou tristeza e ajudá-lo a descobrir como agir nesses momentos são atitudes favoráveis à saúde emocional. O que o adulto não deve fazer é incentivá-lo a expressar seus sentimentos através de ataques. Passada a raiva, não seja ranzinza, não fique remoendo o caso.

Quando a questão é o interesse irresistível e indiscutível pela posse de um objeto, ou a irritação pelo fato de alguém tê-lo perturbado, uma excelente medida é desviar a atenção de seu filho para outro alvo. Surpreenda-o contando... Já sei! O caso da tartaruga, que... "Oh! Ela perdeu o casco e quase morreu de frio. Você nem imagina como se salvou". Antes do meio da história, a calma geralmente está de volta.

E quando não dá para ignorar o fato? São aquelas ocasiões em que é fundamental que algo seja feito, ou quando algo deve ser proibido. Negocie o que é negociável, permita que a criança exercite sua capacidade de escolha, mas faça com que se cumpra o que é necessário. É do adulto essa responsabilidade. É possível, por exemplo, que haja escolha entre escovar os dentes agora mesmo ou logo mais, quando acabar o desenho; entre o pijama curto e o comprido; não é possível, porém, a opção por não escovar os dentes, ou não se acomodar para dormir. Não esqueça de que a criança normalmente sabe o que virá de você. Sabe também quem é mais frágil diante de suas birras. Sabe a quem recorrer para conseguir o que quer, sabe quem quebra as regras estabelecidas na família, quem cede para livrar-se de sua insistência, ou para desautorizar o outro. É impossível ignorar também as reações em que a criança se agride, agride os outros, grita ou chora muito forte. Ela quer, precisa, merece ter contidos seus impulsos de agressividade. Mais uma vez, estamos falando de firmeza e afetividade. Juntas. Compreenda que seu filho está fora de controle e não se sente bem com isso. Contenha-o, conforte-o, mostre-lhe que pode contar com a sua segurança.

Como educadores, estudamos, observamos, mas, acima de tudo, vivemos experiências que devem ser conduzidas pelo amor e também pelo conhecimento e pelo compromisso com o desenvolvimento da autonomia de nossas crianças. É importante que escola e família compartilhem esse bem.


Mordida - em quem dói mais?


Ele é fofo

Até os três anos de idade, as mordidas são conhecidas, atos comuns, mas sempre preocupam pais e professores. Para entender o fato, é preciso voltar nossa atenção para o desenvolvimento físico e emocional das crianças.

O mundo pela boca

Crianças pequenas têm interesse e curiosidade por tudo que há à sua volta. A grande interação com o mundo, todos sabem, principia pela boca, por onde o indivíduo faz importantes descobertas separando o que o constitui e o que constitui o outro. Significativas sensações de prazer físico, psíquico e social acontecem nesse período, que acompanha a dentição.

Na fase oral, encontramos, com frequência, a criança mastigando, sugando, chupando, produzindo sons, levando objetos à boca. E mordendo. Desejando conhecer o outro, apropriar-se dele — coisas e pessoas —, manifesta-se desse modo, com essa agressividade primitiva.

É meu!

É claro que, um pouco mais tarde, a mordida ganha nova feição, passando a ser um modo de chamar a atenção mais rapidamente ou a resposta a um desejo contrariado (antes o choro era o recurso mais utilizado para isso). Normalmente essa criança ainda não fala com tanta fluência, articula as palavras com alguma lentidão e sabe que, com essa abordagem mais "enfática", resolverá mil vezes mais rapidamente a disputa pelo brinquedo. Apesar de sabermos que tais manifestações agressivas na infância não resultam na constituição de um sujeito violento na idade adulta, é claro que esse comportamento deve ser desestimulado. Com a estruturação da linguagem e do pensamento, com a construção da razão, a criança encontra estratégias mais refinadas para solucionar conflitos.

Em situações estressantes, esse tipo de reação também não é algo raro. Mães e professores têm relatos de crianças que, em meio a um grande número de pessoas, como em festas, por exemplo, mordem por ansiedade e insegurança. Alguns momentos na vida da família também podem detonar irritabilidade e agressões: um irmãozinho chegando ou recém-nascido; pai e mãe se separando; mudança de casa ainda não assimilada; todos são exemplos muito comuns. Ainda devemos lembrar os filhos únicos e mais possessivos, que costumam ter baixo nível de tolerância.

Ajudando a criança que morde

Cabe-nos ajudar tanto a criança agressora quanto a que sofre as investidas identificando as razões das mordidas e interrompendo o processo para evitar a instalação da agressividade no grupo. Dê possibilidade a seu filho ou aluno de expressar o que ele sente para que compreenda o que está acontecendo consigo. Quando ele não souber dizer por que mordeu o colega, experimente oferecer-lhe algumas opções.

Fora da situação em que os ânimos estão exaltados, mostre à criança que o amigo ficou triste e machucado. É importante considerar que o conceito de dor, como o de outras sensações, é construído. Imaginar-se no lugar do outro é um excelente exercício para despertar a percepção das consequências das ações que se pratica.

Por mais que pareça a melhor medida, o isolamento da criança não resolve o problema. Aprende-se a conviver bem experimentando a convivência. Ao mesmo tempo, dê mais atenção às crianças para reduzir a incidência de ataques.

Antecipe a ação negativa intervindo para evitar que a criança reincida. É preciso aprender a identificar o contexto dentro do qual ela apela para a mordida. Assim, quando estiver diante da situação-limite, a criança terá a chance de ser estimulada a trocar a comunicação corporal pela argumentação verbal.

Impeça que a criança sinta-se premiada com o comportamento inadequado. Ela não deve usufruir daquilo que conquistou à base da mordida (isso vale para chutes, beliscões, tapas, arranhões). Além disso, estimule sempre um pedido de desculpas.

Se você perceber a necessidade de ameaçar com uma medida punitiva, combine o que acontecerá se o ato voltar a ser praticado e cumpra o combinado. Voltar atrás é dizer que você não tem certeza de sua decisão. Vale lembrar que a punição não deve ser física e que a criança não deve ser humilhada.

Ela foi mordida de novo

A criança que é mordida repetidas vezes precisa de acolhimento — atenção e ajuda — para melhorar seus reflexos, expressar seu descontentamento e encontrar mecanismos de defesa. Fortalecê-la, porém, não é incentivar o revide, o que ocorre frequentemente com alguns pais, pelo receio de que seu filho se torne um sujeito passivo diante da vida. É preciso lembrar que o adulto não deve oferecer um modelo agressivo sob pena de fixar o ambiente hostil que está rondando os primeiros relacionamentos da criança. Por mais que seja sofrido ver o filho marcado por um colega, evite o rancor, pois a criança que morde não é má, e seus pais sofrem muito temendo que ela seja discriminada pela turminha e pelos outros pais.

Há crianças que demonstram gostar de conviver com crianças mais velhas ou com adultos, revelando desconforto, inquietude, irritação quando está com outras crianças de sua idade.  Muitas vezes, a avaliação que se faz, nesses casos, é de precocidade ou de que tal criança é mais madura. Claro, é possível que isso ocorra, mas verificamos, normalmente, que o dia-a-dia entre indivíduos da mesma faixa etária, na fase do desenvolvimento de que estamos tratando, é mesmo o que há de mais difícil — por isso, às vezes, menos desejado —, pois todos têm demandas semelhantes. Aqui não há o que "tem que ceder porque o amiguinho é mais novo".

Final feliz

Uma mãe, minha amiga de longa data, vive recontando as histórias de seus dois filhos. O primeiro foi mordido algumas vezes pelos colegas, e isso doía mais nela (quem não a compreende?) do que no braço dele. O segundo filho, dois anos mais novo, foi para o outro lado da corda: até babava, literalmente, quando via uma bochecha por perto. Aborrecido, então, distribuía empurrões e marcas de dentes entre os que estivessem ao seu alcance. Ela não sabe quando sofreu mais: se quando mãe da vítima ou mãe do agressor.

Bem, a boa notícia é que esses comportamentos são passageiros. Se bem conduzidos, por mãos firmes e afetivas, nossos pequeninos aprenderão a superar essa fase e construirão relações sociais saudáveis. Trocar experiências com o professor, com o pediatra, com o psicólogo, com outros pais é opção que rende tranquilidade para uma ação positiva.


Texto já publicado (reduzido) no Cinform, jornal de Aracaju/SE
Leia também Lençóis de uma infância.

Endermecida


Saíra da cama com agradável sensação de vitória.
No peito, já não mais aquela compressão
acrescida de angustiante náusea e
da iminência de refluxo ou parada respiratória.
Os olhos, estes mantinham umidade natural.
Na medida.
Nenhum prenúncio das torrentes
que há tanto consideravam
lavar minha alma vilipendiada.
Olhavam mais adiante,
procuravam o que a mente já se permitia:
ver o novo,
ou encarar o mesmo percurso com desejos outros.
Lembranças? Tão distantes que invisíveis.
Estava livre.
Mas algo ousava acontecer
sob a rala pelugem que me cobria o corpo todo.
A pele – que descuidada! –, esquecida de esquecer,
queimava em febre
guardando ainda, solitária,
a memória da sua.

(Do meu livro, A Lavra)

Se quiser, Um salto.

Medida

Mirando o bicho para aprender a gente
Foto: Aglacy Mary

Que tanto é um homem
Se me cabe nas mãos
No rigor e na leveza da palavra?
Se cabe no minuto do meu pensar
E na eternidade da minha dor?
Que tanto é um homem
Se me basta um meneio
Para percorrer seu corpo
E uma lágrima
Para penetrar as veredas de sua alma?
Que tanto é um homem
Se meu olhar vence a fronteira
Desverticaliza a cerca da diferença
E confunde sua certeza?
Que tanto é um homem
Se arde meu sangue em suas correntes
Carcereiras do discurso de sua memória?
Que tanto é um homem
Se de sua covardia
Faço as janelas que saem meu desejo?
Que tanto é
Que o meço assim
Em versos tão poucos?

Poema publicado originalmente no Overmundo. 
Você pode gostar de ler Lado B.

Entregue ao domicílio


As sobrinhas cresceram, ela também...

O dia de hoje é de barulhos caseiros
Água correndo
Fido latindo
Crianças brincando
Árvores passarando
Fifis comendo alface
Vem a vó, vem o vô
A fervura sobe na trempe
O sol se espicha
Leite Moça
100 idade
Anunciando o pudim
Hoje não tem motoboy
A pizza fica para outro dia

Microcontos - 5

Amigo Badru, posando pacientemente para mim


Toalha quadriculada, cesta repleta de gostosuras, boa companhia. O piquenique foi quase perfeito. Faltaram as formigas.

Arrumava os filhos, todo mês, para o grande evento: a visita do vendedor de livros. Agora eles são autores publicados na internet.

E eles viveram felizes para sempre que tinham dois aparelhos de televisão.

Antes de as pessoas chegarem ao velório,  finalmente teve coragem. Enviou mensagem mediúnica dizendo ao marido que detestava receber flores.

Não esqueço aquele porre. A formiga sugou a gota do Porto sobre a mesa e saiu tonta, de carona num pedaço de queijo que o rato levava.

Tinha muito crédito na praça. Subia de joelhos a longa escadaria toda semana, antecipando o pagamento das promessas que um dia faria.

Sonhava tão alto que ao acordar tinha dificuldade de levar do chão seu corpo dolorido de volta à cama.

Queria muito entrar para a história. Fez de tudo, mas no fim só conseguiu entrar por uma porta e sair pela outra.

A insônia dele regulava o trânsito noturno da vizinha de cima.

O morador do 302 era de tão poucas palavras que o seu papagaio precisou de tratamento fonoaudiológico.

Você pode gostar de ler Microcontos 1, Microcontos 2, Microcontos 3 e Microcontos 4  ou 30        

Amendoâncias

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Saiba de quem é a foto
Poema inspirado em Mayusane Matsunae
de olhos cuidadosos nas amendoeiras da minha cidade

Setembros mágicos tocam
as amendoeiras da minha cidade,
e elas, obedientes, douram os chãos
De folhas contorcidas
E com uma quase saudade do brilho de antes
Estendem o tapete por onde passam
A senhora e o menino
O cão, o executivo
E o vendedor de pipoca
Que põe em disputa a crocância do milho
E os sons dos próprios pés
Sobre as folhas caídas 
Das amendoeiras da minha cidade
Por favor, poupem a arte do tempo
Não varram as folhas
Das amendoeiras da minha cidade
Que as quero sonorizando ruas de ouro
Em vindos sóis de setembro
Mas por favor, varram as folhas
Das amendoeiras da minha cidade
Que, de tantas que são,
Talvez cismem de fazer montes
E encobrir-me a bela vista
Das amendoeiras da minha cidade