sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Semipronto

Do mirante da Treze de Julho

gosto
do pedaço indefinido
de você

que mais me faria ficar
que mais me faria insistir
senão
o ato de supor
o exercício de procurar
a tentativa de descobrir
o prazer de inventar

gosto
do pedaço
do indefinido
de você

Dúvida

Foto do meu amigo Manu Feio | Cidade de Águeda, Distrito de aveiro

a incerteza 
que nos rege
é a mesma
do rijo do chão,
que dorme e acorda
sem saber
em que trecho 
de pedra sua
vai pingar
a próxima porção
de chuva

é nesse gotejar
de surpresas
que vive 
a poesia,
que me salva
um pouco,
todo dia

Lacunosamente


pior seria
se me soubesses 
toda

melhor assim:
eu me rascunho
tu me tentas
adivinhar

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Meio dada


Gosto  de gente.
Em pouca e muita quantidade.

Gosto dos gritos anônimos,
das alegrias bobas em mesas na areia,
das lágrimas de colírio no canto da festa,
do esforço dos encontros forçados
e até das queixas que me alugam os cotovelos
e me põem palitos nos olhos.

Mas também não gosto de gente.
Então fecho a porta e ouço a minha música.

Teatro de Sombras


Digo tudo à contra-luz,
contorno recém-formado. 
Abro-me toda em resposta, 
sou frase de sol postado.

Silhueta, morta em dia,
reza intenção de pecado.
Redenção nasce no texto, 

desenho foi estripado.

Fechou-se, por fim, o ato
que já nasceu projetado 

nas paredes do meu peito,
de concreto desarmado.