domingo, 29 de agosto de 2010

Cognição criadora


UM MODO SINGULAR DE CONSTRUIR 
PROJETOS DE APRENDIZAGEM
Antes do sociólogo e filósofo Edgar Morin,
o tecido de minha echarpe guardava menos complexidade

A escola repete, desde Jean Piaget, que o cognitivo e o afetivo não se separam e concorrem juntos para a construção do conhecimento.  Leu em Vigotski que vivenciar os conteúdos é atividade fundamental para a aprendizagem verdadeira, significativa. Constatou que a TV conhecia o segredo do psicólogo suíço e que o professor precisava instrumentalizar o aluno para usar a ferramenta a seu favor e reagir criticamente à sedução do mundo imagético que o ecrã revela. Foi possível ir além, construindo um caminho a partir de boas doses de conhecimento técnico, empatia e criatividade. Falo aqui de um modo singular de realizar projetos de trabalho na Educação Infantil e no Ensino Fundamental.
Circula com ênfase, já há décadas, nos ambientes de aprendizagem, a afirmação de que o conhecimento é resultado de um processo social de construção. Identidade, disciplina, emoção, tudo nesse mundo se constrói. Os professores têm cada vez mais certeza disso, e os alunos também, apesar de nem todos se entregarem ao s(l)abor desse empreendimento para além do discurso antenado com o que parece moderno. Construção de conhecimento demanda esforço e exige algumas competências; optando por essa entrega, no entanto, é possível encontrar o lugar da invenção, de uma conversa estética, da cognição criadora a partir do emprego da força da emoção, águas em que podem mergulhar aprendentes de toda idade. Os projetos de aprendizagem podem ir além de um tímido, resumido e totalmente previsível conjunto de atividades com os mesmos lugares determinados a que todos os alunos devem chegar ao mesmo tempo. Projetos de aprendizagem podem criar asas e roteiros particulares de voos a partir de uma construção coletiva. Ao lado de professores que se preparem para coordenar o processo, alunos assumem seu lugar legítimo de autoria do próprio aprender. Para isso há que se enfrentar cotidianamente o desafio de conhecer a natureza mutável do conhecimento e de considerar a grande trama que envolve cada saber interligando-o a todos os outros em seus diversos aspectos. Por essa ideia de complexidade, do francês Edgar Morin, certamente há um caminho de distanciamento da superficialidade recorrente na abordagem pedagógica reinante.
Atuando, desde a década de 80, com projetos pela sua possibilidade de contextualizar o conhecimento, tenho o privilégio de ver acontecer, desde 1990, um modo original de realizá-los. Esse fazer próprio envolve a escuta, princípio da ideia do educador italiano Loris Malaguzzi, mas considera que o poder de escuta do professor pode ir além da fala objetiva do aluno. Na montagem de projetos que tenho vivenciado, consideramos que a criança ou o adolescente pode definir caminhos a partir de provocações feitas pelo professor, que, do lugar de sua formação e experiência, terá buscado fundamentação não só nos interesses, mas também nas necessidades que conhece de seus alunos. Assim, torna-se possível compartilhar diversos saberes e linguagens construindo também a civilidade e a cidadania.
Sendo impossível oferecer todo o conhecimento do mundo, a escola precisa provocar o desejo e dar a seu aluno ferramentas de busca — o método. O que apaixona é poder fazer isso ao mesmo tempo em que todos — professores, alunos e comunidade — se embrenham num mundo de instigantes conteúdos em que realidade e ficção se misturam na sala de aula, uma provocando e alimentando a outra, e transpõem o muro da escola. Assim é que vejo alunos envolvidos numa trama que, mesmo sendo arquitetada pelos professores, introduzida por eles, é problematizada de modo a evidenciar diferentes possibilidades de intervenção com sentido autoral. Essas interferências decorrem da relação dialógica entre o mundo que o aprendente já traz consigo, o mundo descoberto através da ação do professor, que conduz à pesquisa, e o mundo inventado, necessário para a manutenção e ampliação aprimorada da realidade.
A produção coletiva de um projeto de aprendizagem que guarda o rigor do compromisso com o planejamento e a pesquisa, a interação entre os variados campos de conhecimento e a flexibilidade que garante espaço para o conhecimento que virá a ser é uma experiência que todo aluno deveria ter o direito de construir. A corrida em que o educador deve inscrever-se, portanto, não é a do ser diferente, mas a do ser autêntico, original na busca dos melhores caminhos para o Ser mais completo. O ser aluno, o ser professor, o ser humano.


De Aglacy Mary, publicado no jornal Cinform

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