domingo, 27 de junho de 2010

Microcontos - 1


Viam-se pela primeira vez, fora daquela rede social. Apreciaram todos os caracteres um do outro. Mais de 140 cada. Logo nasceu um blog.

Era tão minuciosa na limpeza que aspirava até o pó facial da patroa.

Ele propôs, logo que viu suas curvas estonteantes: Nós dois numa ilhazinha deserta... E ela, imaginando o coqueirinho solitário: Ô tédio!...

Melhor seria dar a ré, mas preferiu alongar o caminho; sua autoestima era tão pouca que não queria o risco de se encontrar com o retrovisor.

Sem pontaria, ensaiou os olhos de véspera e usou uma de cano mais longo. Mirou e TEI! Queria ver não acertar o bicho-de-pé. Manca até hoje.

A Lua em Vênus, o escorpião pôs tudo na balança e imaginou, perturbado: ela sendo virgem, há risco de gêmeos? Mudou de ideia: pediu peixes.

A esposa, avarentamente amada, estava morta. Agora ele cobria de regalias a astuta carpideira. Enfim, só.

O menino com a bola na rua. O homem só dando bola pra Lua. A bola salta o muro, o menino vai atrás e zás! Uma vida por um fio. Desencapado. 

Ela precisava saber. Ele confirmou. Ela o quis mesmo assim. Não voltaram, outra vez qualquer, ao assunto. Nada mais dito, nada mais sofrido. 

Naquele prédio, a janela dela nunca escurecia. No meio da noite, seu corpo era cansaço, mas as melhores ideias impiedosamente o acendiam.

Adorava olhos de sogra. Retirou os da sua antes de lhe fecharem o caixão.

O vendedor de quebra-queixo terminava o dia na porta do maior protético do bairro, de quem recebia gorda comissão. 

Naquela vila os homens eram tão grosseiros que não se pôde mais jogar baralho: as cartas delicadas mudaram-se para o tabuleiro de damas. 

A promotoria venceu. O júri considerou: uma maçã não é motivo para que alguém perca o Paraíso. Foi condenada a sete mangas e uma jaca. 

Não podia mudar a estrada, trocou então os sapatos.

Desde que a tecla enter de seu pc emperrou, só publica microcontos aquele escritor.
 
Você pode gostar de ler Microcontos - 2 Microcontos - 3  Microcontos - 4
 

Um comentário:

  1. Brincar com as palavras. Para além das confissões, das expressões, das expansões e das exposições de si mesma, o que é bonito em Aglacy é essa capacidade impressionante de inventar novos modos de fazer essa brincadeira. Diabolicamente inteligentes, seus trocadilhos semânticos - imensamente mais valiosos que os fonéticos ou gráficos - divertem e enternecem. Concretude flutuante. Palavras não como veículo, mas como matéria-prima das ideias. Inspirador.

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