quinta-feira, 3 de junho de 2010

E o pau comeu

Aquela sexta-feira foi mais ou menos boa. No último minuto da tarde, consegui um disputado bilhete para o cobiçado Festival Internacional de Jazz. Dali foi apenas o tempo de chegar ao apartamento, tomar um banho, comer uma salada, pôr uma roupa e sair. Casa cheia, ambiente cult, a noite fazia muitas promessas. Quando a banda argentina estava dando o melhor de si, tive que sair para atender a um chamado. Coisa de quem adota o tal aparelhinho que vibra sem fazer escândalo.

Alinhavada a situação desastrosa, não cabia mais voltar ao teatro, mas resolvi voltar à rua. Afinal, precisava vingar-me do desperdício de meu preciosíssimo ingresso. Estava verdadeiramente aborrecida. Agora minha vontade era a de abater o primeiro que aparecesse à minha frente. Não seria a primeira vez. Minha iniciação já contava uns bons 40 anos. Nessa coisa, pelas bandas do nordeste, a gente começa cedo.

Atravessei o calçadão e ali mesmo, a uns 200 metros de casa, fiz a primeira provocação. Enfrentaria dois de vez, pra começar. Sou de fé, mas tenho cautela. Demorou um pouco pro cara do outro na cara. A turma em volta estava tão ansiosa quanto eu. Quem não vivia a tensão da primeira vez, embalava a expectativa de sentir-se novamente no comando daquele duelo, que prometia sempre gozos indescritíveis. Só consegui enfrentar um. O outro caiu nas (des)graças de Xavier, que chegou inesperadamente. Teria dado conta. Mas uma companhia, nessas horas, é mesmo bem-vinda. As mãos de meu amigo agiam sôfregas. Ele se mostrou — nenhuma novidade nisso — mais ágil que eu. Mas não tão minucioso. Nisso ninguém me superava. Encerro o serviço com uma eficácia de causar espanto. Deixo a cena como se cena não tivesse havido.

Xavier animou-se. Provocou mais uns. Aderi. Parceiros são assim. Ponto e nó. Vieram. Valentes, esses inspiravam maior temeridade. Tanto pela aparência, mais severa, quanto pelo tamanho e pela postura com que se colocaram diante de nós. Xavier foi gentil, cedeu-me a dianteira. Se fosse possível, consumaria aquilo num só golpe. Meu parceiro percebeu certa aflição e veio em meu socorro. Queria ter feito tudo a mãos nuas, mas tive que me valer de um robusto pedaço de madeira com quem divido o mérito nessa peleja. Ao primeiro sinal de resistência, pôde-se ouvir aquela pancada objetiva, certeira, inconfundível. Daí em diante, aquilo tudo de novo. O serviço precisava ser concluído. Com estratégia, paciência, disposição. Xavier resolveu-se como de costume: ferocidade de macho, dentes à mostra, negando chance a quem ousasse querer uma.

Ainda não satisfeitos, mas sendo vencidos por uma sonolência vinda não sei se da força gasta, ou de algo que bebericamos, voltamos aos nossos redutos, caminhando pelo calçadão da praia. Eu era, de novo, a boa e frustrada apreciadora de jazz com a sorte de ter um vizinho como Xavier, que desfez o silêncio que fazíamos agora:

— Estavam deliciosos. Pena que só demos conta de quatro.

— É o peso da idade. Domingo a gente come mais. É bom aproveitar; não sei se sabe, mas, nos meses sem "r", eles estão sempre melhores. Setembro vem aí, abrindo uma temporada ruim até fim de abril. Por isso, sou partidária do Cebolinha. Por mim, a plimavela tlalia setemblo; o mês das clianças selia outublo; o ano findando chegalia a novemblo e o anivelsálio do Menino Jesus acontecelia em dezemblo. Assim, nós telíamos calanguejo goldo o ano inteilinho.

Nós dois rimos muito e fomos dormir como anjos.

História contada na Aperipê FM e publicada no jornal Cinform.
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