domingo, 5 de setembro de 2010

Microcontos - 4

Cada microconto tem quase tanta história
quanto uma dessas gotículas que fotografo

Lavou-se. Olhou-se no espelho. Passou óleo de peroba na cara e saiu a pedir votos novamente.
 
Seu ego falava tão alto que os amigos nunca desconfiaram de que ele fosse mudo de nascença.

Ela não se conformava: antes de a noite amanhecer, seu príncipe pulava da cama; não podia atrasar a entrega do jornal de cada dia.

Morreu sem entender por que o mar insistiu em derrubar-lhe os lindos castelos de areia que fez e refez por uma vida inteira.

Tomou de volta as tardes de sábado, que o calendário lhe roubara há duas décadas.

Estava com a faca e o queijo na mão. Faltava-lhe a vontade de comer.

Amá-la foi como fazer corrida de obstáculos. Tropeçou nuns pés de galinha, bateu num pneuzinho, caiu entre duas celulites. Melhor não seria.

Enfim cedeu e retribuiu o olhar insistente. A réplica de Jack Bauer continuou estática, na propaganda do carro. Ela pagou a compra e o mico.

O casalzinho adorou o filme. Sabia-lhe o título e o último nome da lista de créditos.

Nem reparou que aquele era um Koeigsegg Trevita, de mais de US$ 2 milhões. Ergueu a perna e se aliviou num pneu traseiro.


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