domingo, 12 de setembro de 2010

Roteiros


Caderno de Cultura do Jornal Cinform - Aracaju - SE, 11 a 17 de outubro de 2010 - Ano XXVIII, edição 1345
      
A noiva era médica. Nela ele admirava a ciência com que se lançava ao desafio de descobrir o melhor caminho senão para debelar a doença, ao menos para enganá-la; a técnica com que agia, horas a fio, naquele laboratório, palco de incansáveis ensaios em que homens e ratos se uniam – mais a gosto dos homens que dos bichos – para o bem da humanidade; a competência que a destacava entre tantos outros pesquisadores. Uma mulher à altura da formação acadêmica avançada que ele fizera.
Para o casamento, faltava apenas resolver a questão de onde morar. No apartamento dele ou no dela? Precisavam equacionar as distâncias entre casa e trabalho dos dois. Além ou aquém da serra? Ele sentia dificuldade de afastar-se daquela região onde cultivara tantos sonhos e vivera tantas realidades. As viagens para o interior e o retorno, a serra ainda lá. Decidiram. O melhor seria vender os dois apartamentos e comprar aquela casa, ao pé da serra, do lado de cá, pois ele fazia questão de manter seu roteiro de quase todos os dias.
Finalmente a casa. Era linda. Mas queriam que fosse mais que isso. Que fosse à feição deles. Não tiveram dúvida. Iniciaram a reforma. Cuidaram para não entregar o sonho de suas vidas nas mãos de qualquer profissional, e a obra foi tocada de forma que ele dispensava todo seu tempo livre àquilo.
Era um sábado de outubro quando, exausto, saiu do projeto de casa para seu apartamento. Tinha aquele convite para o Municipal, e a música sempre fora sua boa companheira. O espetáculo era de dança, mas uma e outra andam sempre juntas. Pena que a noiva estivesse fora, num congresso. Se bem que ela não apreciava tanto a arte a ponto de passar a noite em uma poltrona — por mais confortável que fosse — avizinhada de tantas outras, para assistir ao que poderia alcançar em um DVD, na intimidade de sua cama, com o controle remoto a seu dispor.
Banhou-se e foi. No caminho, buscou um amigo, o que lhe havia falado do espetáculo. Descobriu que a primeira bailarina era responsável pela destinação da bilheteria daquela noite a um projeto que reunia 1.500 crianças em aulas de dança. Ela era autora do projeto, que contava agora com o apoio de inúmeros artistas.
No palco, viu a nobreza da atitude somar-se à precisão dos movimentos, em um virtuosismo inigualável — técnica e emoção em um só corpo. Agradeceu a não sei quem por não se ter rendido ao cansaço naquela noite. Quando a música repentinamente cessou e o movimento fez-se pausa, ele tornou a respirar.
— Vamos jantar conosco?
— Você e...
— Ela foi trocar-se. Está vindo.
Claro que ele a reconheceu. Não pelas feições do rosto; pelo poder de perturbar sua alma. No palco e ali, ao alcance de um sopro de ar que guardava, premido, em seus pulmões.
— É sua...
— Sim, minha irmã. A irmã mais divina que um homem pode ter.
Os dois não se separaram mais. A casa ao pé da serra voltou a ser dois apartamentos, e a vida ganhou jeito novo. Qualquer coisa parecida com um beijo ou um cansaço de fim de tarde. Ou ainda com uma capacidade de pairar no ar, ágil e veloz.
Um ano inteirinho se passou. Viam-se todos os dias. O frigobar de um já havia feito intercessão com o micro-ondas do outro, e já não era raro o beijo matinal com sabor de beijo apenas. O clã do rapaz aprovara a usurpadora de corações não tão valentes, e ela não dependia do sim de quem quer que quisesse dizê-lo.
Voaram mais dois meses. Era um inverno ameno. A noite pedia chocolate quente, edredom macio e um bom livro. Ou um bom amor. Os dois até. Havia um jeito de coisa nova, suspensa como beija-flor na intenção de seu querer. Ele assistia à beleza dela, linda e irrequieta naquele pijaminha de seda japonesa – qualquer outra lhe caía pesada demais, sobre a pele delicada e fina – e, certo de que não viviam ali um encontro fortuito, decidiu que aquele seria um bom instante para entrelaçar a futuridade de suas histórias. Ele o sabia. Ela o soubera. Com a mesma leveza perturbadora que um dia lhe exibira no palco, avizinhou-se de seu ouvido e calou suas intenções:
— É tempo de espalhar sonhos, meu amor. Vamos para a Europa, na próxima semana, e de lá, para o mundo inteiro: eu e o meu balé.
Leia também Microcontos I.

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