terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Para sempre

Publicado no Caderno de Cultura do Cinform


Casamento às vésperas do Réveillon. Breno e Gina ousaram protagonizar uma ideia arriscada. Fim de ano é tempo em que a maioria do nosso grupo costuma viajar, mas os noivos decidiram investir na data para aproveitar suas férias. Afinal, o importante era que eles não faltassem à própria cerimônia. “A plateia podia ser dispensada”. Breno dizia isso às gargalhadas, na despedida de solteiro. Mas nós éramos muito ligados ao casal e programamos viagem somente para depois do enlace.

Breno é bancário. Estudou comigo durante todo o ginásio e no primeiro ano científico, quando teve um namoro seriíssimo com Leonor. Quase dá casamento aquilo ali, mas ela terminou tudo, e ele quase se acaba. Mas acabou mesmo foi mudando de sala na escola. Depois fez arquitetura, mas passou num concurso e começou carreira na instituição financeira onde eu já trabalhava. Agora somos colegas também no curso de Direito. Gina é fisioterapeuta e tem uma gráfica. Leninha e ela fizeram faculdade juntas. Encontramo-nos, os quatro, na festa de formatura das moças e ali começou o namoro dos casais. Breno não tinha um relacionamento sério desde Leonor.

Não nos víamos com a frequência que desejávamos, mas havia aquela peladinha de sábado que eu frequentava uma vez no mês, e Leninha se encontrava com Gina praticamente toda sexta-feira, quando disputavam o melhor horário do cabeleireiro. Breno e Gina se identificavam mais entre si que Leninha e eu. Gostavam de fazer juntos quase todas as coisas e pareciam conhecer-se mais do que qualquer casal.

O dia do casamento deles foi especialmente atribulado lá em casa. Faltava-me preparar detalhes da nossa viagem de férias, e a cidade estava muito agitada. Gastei o triplo do tempo habitual para dar conta de coisa pouca. Leninha, contrariando séculos de construção do perfil feminino, estava pronta uma hora antes da hora da celebração. Cheguei da rua esbaforido e fiz jus à fama de que homem se veste em dois segundos e só precisa de um pente além da roupa e do sapato. Assim, logo saímos.

Aquela não era a paróquia deles, mas foi onde todos os amigos mais próximos se casaram — o que era uma lástima para nós, pois o caminho até a capela estava de tirar paciência de santo. Não sei se foi uma batida à altura da ponte, ou carro demais para pouca avenida. O fato é que não saíamos do lugar. A mulher olhava o relógio que lhe dei no dia dos namorados e repetia: “Eu fiquei pronta uma hora antes!”

O tempo gasto ali já era tanto que reconhecemos a inutilidade de seguir com nosso plano de deslocamento. Encontraríamos os noivos, ou melhor, os casados na festa. Eles entenderiam... Pegamos uma via perpendicular e tocamos o carro para o salão de festas, o que nos custou quarenta minutos. Encontramos um clima tão animado, que logo nos livramos de toda aquela tensão apesar de não encontrarmos por lá nossos amigos mais chegados. É claro que estranhamos algo em especial, e Leninha questionou: “Que combinado foi esse de os convidados vestirem azul ou vermelho? E os noivos não chegam nunca?” Ouvindo minha nada discreta esposa e percebendo nosso desconforto, uma moça uniformizada nos abordou: “Noivos?! Não. Esta é a festa de confraternização de amigos alagoanos apaixonados pelo pastoril. Observem que eles vestem as cores do cordão azul e do encarnado, harmonizando-se com a decoração do ambiente”.

Perdemos o norte. Aliás, perdemos a bússola inteira. Ligamos pra Ferreirinha na esperança de descobrir o endereço verdadeiro da festa de casamento de nossos amigos. Aquele era presença certa. “Atenda, Ferreirinha!”  Ele atendeu: “Tá onde, rapaz! Chegue logo que, na falta dos noivos, o casal formado pelos melhores amigos serve”. Eu não podia acreditar que Breno e Gina já tinham ido embora da festa e nós não poderíamos abraçá-los. “Mas como, Ferreirinha? Eles mudaram o horário do voo?” Ferreirinha engasgou e desengasgou: “Rapaz, por onde você andou que não soube...? Bem na hora de trocar as alianças, Breno ia começar a fazer aquelas promessas todas de amor eterno mais as juras de fidelidade. Tinha decorado tudo, mas errou no comecinho e logo no nome da noiva: Leonor”.

Autora: Aglacy Mary
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