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domingo, 5 de setembro de 2010

Microcontos - 4

Cada microconto tem quase tanta história
quanto uma dessas gotículas que fotografo

Lavou-se. Olhou-se no espelho. Passou óleo de peroba na cara e saiu a pedir votos novamente.
 
Seu ego falava tão alto que os amigos nunca desconfiaram de que ele fosse mudo de nascença.

Ela não se conformava: antes de a noite amanhecer, seu príncipe pulava da cama; não podia atrasar a entrega do jornal de cada dia.

Morreu sem entender por que o mar insistiu em derrubar-lhe os lindos castelos de areia que fez e refez por uma vida inteira.

Tomou de volta as tardes de sábado, que o calendário lhe roubara há duas décadas.

Estava com a faca e o queijo na mão. Faltava-lhe a vontade de comer.

Amá-la foi como fazer corrida de obstáculos. Tropeçou nuns pés de galinha, bateu num pneuzinho, caiu entre duas celulites. Melhor não seria.

Enfim cedeu e retribuiu o olhar insistente. A réplica de Jack Bauer continuou estática, na propaganda do carro. Ela pagou a compra e o mico.

O casalzinho adorou o filme. Sabia-lhe o título e o último nome da lista de créditos.

Nem reparou que aquele era um Koeigsegg Trevita, de mais de US$ 2 milhões. Ergueu a perna e se aliviou num pneu traseiro.


sábado, 4 de setembro de 2010

30

Um de meus céus


Vê as cores primaverando os chãos?
Vê a noite acendendo insetos?
Vê os olhos se negando abertos?

Vê os pés encurtando a rua?
Vê o peixe fisgando a lua?
Vê o barco acalmando o rio?
Vê o gesto que alforrio?
Sou eu
Amando você


Pode ler Periódico.

Periódico



Poema suado


Mãos de uma antiga e conhecida professora
Lavei um verso no tanque de Zefa
Estendi duas rimas no varal de Nita
A ferro estrofes passam pelas mãos de Dona Francina

Do borralho que faz o suor das gentes
Nasce a minha voz posta em papel
Um poema com alma
Modelado na palma da mão que trabalha

Pouco

domingo, 29 de agosto de 2010

Microcontos - 3

Foto e aventura gastronômica: Aglacy Mary


Sem memória do que fazia naquela casa, tremeu; ele veio e tomou-lhe a mão esquerda. No próprio dedo, a algema de ouro e o nome gravado.

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Ele pôs o veneno no batom. Ofereceu-lhe o cosmético. Ela pintou os lábios. Gélida, chorou Bourbon e deu-lhe o último beijo. Dos dois.

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Ele quis levá-la para uma ilha deserta. Os dois e a eternidade. Ela gostou da ideia e fez-lhe apenas duas exigências: um barco e um píer.



Leia também Microcontos 1 Microcontos 2 Microcontos 4 Microcontos 5

Outra vez, o tempo



Hoje o dia é de longas passadas
Sou turista de próprias paisagens

O roteiro leva à porta da casa
Onde os espinhos da rosa
Fizeram retalhos vermelhos
Da bola da menina (,) que voava

Os chãos seguem e percorrem
Todos os palcos
Que guardaram vozes rubras
Da adolescente escondida

À próxima parada
Uvas fermentam promessas
De uma vida que lateja
Anunciando novos estados de ser...

Em bordô
O tempo borda
No passaporte deflorado
Linhas que revelam um destino

Em trânsito

Publicado originalmente no Overmundo, em janeiro/2009