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quinta-feira, 21 de maio de 2015

A vida em gotas

Foto: Gabriela Correia

Em cada gota de soro,
pinga na veia a severidade
dos amanheceres maternos
nas calçadas da meninice.
Em cada gota, pinga
a saudade mal sentida
do pai que cedo se fez retrato
na galeria da vida dos netos.

Pinga na veia
a expectativa do encontro
com a mocinha do pontilhão,
que lhe daria seis prendas.

Em cada gota de soro,
um mergulho de volta
no mar de seu sangue.

sábado, 7 de março de 2015

Pauta única


Nada é coisa à parte.
Nem a Grécia.
Nem a Indonésia.
Nem a consulta
médica.
Nem a minha questão
doméstica.
Nem a nossa relação
cinética.
Tudo existe.
Tudo exige.
Tudo insiste.
Tudo é grave.
Tudo urge.
Tudo arde.

Sete mortes por semana


Hoje eu morro
de novo,
mais um pouco.
E no depois
dessa morte
que me morre
todo dia,
preencho falha,
promovo troca,
removo erro.
E vou ali
virar broto
em pé de gente.

Do adeus


Um dia eu dei 
meus olhos aos teus
e arrisquei pedaço
de meu breu.
Agora, quando
seus olhos pousam
sobre meus olhos
esse brilho ateu,
sei que é hora.
Vamos embora.
Seu lugar do meu
lugar se perdeu.

Sem sentidos


O dia nasceu, e eu estava triste.
A música tocou, e eu estava triste.
Minha escola ganhou, e eu estava triste.
Serviram maniçoba, e eu estava triste.
O jogo empatou, e eu estava triste.
O exame deu negativo, e eu estava triste.
O motorista chegou, e eu estava triste.
Trouxeram-me estrelas, e eu estava triste.
Tristeza assim é anestesia.
Um não saber olhar.
Um não saber querer.
Um não poder sentir alegrias.

Um sonho, uma rega


Todas as cento e dezessete rosas
que floriram no Natal daquele ano
me acordaram hoje pedindo rega.
E eu, que me arreceio de sonho
de madrugada-sentinela, obedeço.
Recolho as promessas de jardim
e todo instrumento de que careço,
e planto esperança em canteiros.
Para quem não é muito de se dar
a suores, mas aprecia a arte que
cavouco em mim, planto também
um batente de janela e um copo
de café num fumegar sem fim.

Focum


Tudo é possível
quando se acorda
com nova lente.
Até se olhar
no espelho
e ver tudo igual
e ter vontade
de pegar fogo
e fazer tudo
diferente.
Tudo é possível.
Até começar
novamente.