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sábado, 29 de agosto de 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
De pedra e flor
carrego flores
mas não carrego flores
somente.
vês o colorido em minha lapela
e não pões reparo nos bolsos de trás.
é lá que guardo todo cascalho
que me esfolia as vontades no caminho.
não é a flor, mas o grão de areia.
não é a flor, mas o seixo.
não é a flor, mas a pedra de cantaria.
isso é o que me desafia a ser quem sou.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Tempos de madrugar
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Sol ardente
Passa, mas não passa
todo amanhecer é um juntar de histórias.
o que aconteceu um dia não passa nunca.
o que aconteceu um dia não passa nunca.
o que passa [devagar como andor
em procissão de morto grande
ou num ligeiro de colibri a cortejar fêmea]
é a dor do sangue vertido em cada ato
é a sensação do gozo que foi alcançado.
em procissão de morto grande
ou num ligeiro de colibri a cortejar fêmea]
é a dor do sangue vertido em cada ato
é a sensação do gozo que foi alcançado.
todo amanhecer reúne vozes antigas.
o que aconteceu um dia não passa nunca.
o que aconteceu um dia não passa nunca.
mas passa.
Receita de não salgar moqueca
Já saibam que eu
andava gabola pelos feitos culinários daqueles dias. Tudo começou com a
empolgação pelo primeiro caldinho de sururu e por ter motivo para me sentir
competente na autoria desse tipo de arte. Aconteceu que, na mesma semana,
tornei pública a melhor rabada que eu já provara — feita com um incrível
segredinho de batatas, dica do ex-marido —, e a delícia fez sucesso entre
todos os convivas (é certo que minha especialidade à época teve apenas
familiares para dar nota, mas são todos sinceros, eu juro).
Aproveitando a
maré de alta performance, aventurei-me numa moqueca de cação e comecei a
fazê-la do começo. Não, não pesquei o tubarãozinho da carta de Pero Vaz, mas
fui escolher o que havia de melhor nas bancas do Mercado Central e não escondo
que a assessoria do meu irmão mais velho foi decisiva para o bom desempenho
nessa parte da tarefa.
Para a etapa
cozinha, eu apostava no conhecimento que adquiri quando escalada para
assistente de minha mãe nos deliciosos almoços da melhor parte de minha vida.
Cabia-me machucar uns temperos e picar outros. Depois ficava ali, empenhada na
mexidinha do caldo, até a fervura do leite de coco, que era para não talhar
(será que talha?)
Tudo estava sob
controle, e eu não queria perder aquilo salgando demais o prato. Por isso, fui
naquele ritmo medroso, para acrescentar ao invés de ter que aplicar estratégia
de retirar o sal da moqueca. Primeira prova e... humm... sal nem de longe. Pus
um bocadinho mais, ainda timidamente. Segunda prova, e uma pequena alteração no
sabor, mas nem um indivíduo hipermegatenso e sem medicação sentiria aquilo.
Era chegada a
hora em que uma cozinheira de faz-de-conta perde o prumo. Enchi a mão.
"Quero ver se esse peixe não toma gosto!" Tomou. Gosto de açúcar. Até
hoje minha boca se enche de doce quando vê uma moqueca.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
De passagem
A vida em gotas
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| Foto: Gabriela Correia |
Em cada gota de soro,
pinga na veia a severidade
dos amanheceres maternos
nas calçadas da meninice.
pinga na veia a severidade
dos amanheceres maternos
nas calçadas da meninice.
Em cada gota, pinga
a saudade mal sentida
do pai que cedo se fez retrato
na galeria da vida dos netos.
Pinga na veia
a expectativa do encontro
com a mocinha do pontilhão,
que lhe daria seis prendas.
a expectativa do encontro
com a mocinha do pontilhão,
que lhe daria seis prendas.
Em cada gota de soro,
um mergulho de volta
no mar de seu sangue.
um mergulho de volta
no mar de seu sangue.
sábado, 7 de março de 2015
Pauta única
Nada é coisa à parte.
Nem a Grécia.
Nem a Indonésia.
Nem a consulta
médica.
Nem a minha questão
doméstica.
Nem a nossa relação
cinética.
Nem a Grécia.
Nem a Indonésia.
Nem a consulta
médica.
Nem a minha questão
doméstica.
Nem a nossa relação
cinética.
Tudo existe.
Tudo exige.
Tudo insiste.
Tudo é grave.
Tudo urge.
Tudo arde.
Tudo exige.
Tudo insiste.
Tudo é grave.
Tudo urge.
Tudo arde.
Sete mortes por semana
Hoje eu morro
de novo,
mais um pouco.
de novo,
mais um pouco.
E no depois
dessa morte
que me morre
todo dia,
preencho falha,
promovo troca,
removo erro.
dessa morte
que me morre
todo dia,
preencho falha,
promovo troca,
removo erro.
E vou ali
virar broto
em pé de gente.
virar broto
em pé de gente.
Do adeus
Um dia eu dei
meus olhos aos teus
e arrisquei pedaço
de meu breu.
Agora, quando
seus olhos pousam
sobre meus olhos
esse brilho ateu,
sei que é hora.
Vamos embora.
Seu lugar do meu
lugar se perdeu.
Sem sentidos
O dia nasceu, e eu estava triste.
A música tocou, e eu estava triste.
Minha escola ganhou, e eu estava triste.
Serviram maniçoba, e eu estava triste.
O jogo empatou, e eu estava triste.
O exame deu negativo, e eu estava triste.
O motorista chegou, e eu estava triste.
Trouxeram-me estrelas, e eu estava triste.
A música tocou, e eu estava triste.
Minha escola ganhou, e eu estava triste.
Serviram maniçoba, e eu estava triste.
O jogo empatou, e eu estava triste.
O exame deu negativo, e eu estava triste.
O motorista chegou, e eu estava triste.
Trouxeram-me estrelas, e eu estava triste.
Tristeza assim é anestesia.
Um não saber olhar.
Um não saber querer.
Um não poder sentir alegrias.
Um não saber olhar.
Um não saber querer.
Um não poder sentir alegrias.
Um sonho, uma rega
Todas as cento e dezessete rosas
que floriram no Natal daquele ano
me acordaram hoje pedindo rega.
que floriram no Natal daquele ano
me acordaram hoje pedindo rega.
E eu, que me arreceio de sonho
de madrugada-sentinela, obedeço.
Recolho as promessas de jardim
e todo instrumento de que careço,
e planto esperança em canteiros.
de madrugada-sentinela, obedeço.
Recolho as promessas de jardim
e todo instrumento de que careço,
e planto esperança em canteiros.
Para quem não é muito de se dar
a suores, mas aprecia a arte que
cavouco em mim, planto também
um batente de janela e um copo
de café num fumegar sem fim.
a suores, mas aprecia a arte que
cavouco em mim, planto também
um batente de janela e um copo
de café num fumegar sem fim.
Focum
Tudo é possível
quando se acorda
com nova lente.
quando se acorda
com nova lente.
Até se olhar
no espelho
e ver tudo igual
e ter vontade
de pegar fogo
e fazer tudo
diferente.
no espelho
e ver tudo igual
e ter vontade
de pegar fogo
e fazer tudo
diferente.
Tudo é possível.
Até começar
novamente.
Até começar
novamente.
Tome nota
Precisa-se de bloco de notas
com número de páginas suficiente
para guardar cores e sabores
sem conta, de um domingo dado
à monocromia azul de Picasso.
Que se anote o lugar do guardado
e que se traga de lá, caso minha
memória careça, um bocadinho de
carmim e um retalho de jade, um ramo
de alecrim e uma semente que arde.
Rua de dentro
No dia em que resolvi
sair, foi assim: apaguei luz,
tranquei porta, escondi chave.
sair, foi assim: apaguei luz,
tranquei porta, escondi chave.
Abertos, porém, os olhos
de minha cega companhia
para ver o que havia em
minha mais negra escuridão.
de minha cega companhia
para ver o que havia em
minha mais negra escuridão.
Desde o dia em que resolvi,
saí. Pés no chão encerado,
deslizes pra dentro de mim.
saí. Pés no chão encerado,
deslizes pra dentro de mim.
É Carnaval
Mora uma paz no
carnaval que freve
em meus pés,
ainda que deva
construir pistões
e regular de meus
lábios a pressão
para controlar o
desembesto do ar
que corre
no trompete
da minha mais
complexa
e desejada canção.
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